IMG_3892

“A Elegância do Alimento” só poderia existir em terras italianas

IMG_3922

‘A Elegância do Alimento'(L’eleganza del cibo) é uma mostra de arte incomum colocada num espaço único e de valor inestimável: Mercati Di Traiano, em Roma. Muitos vestidos e alguns acessórios que tiveram como fonte de inspiração o alimento em seu design, dão um toque especial em meio as relíquias históricas de um passado muito remoto.

Uma mostra que só poderia ser criada em terras italianas, partindo da premissa que eles são especialistas em moda e famosos na cozinha.

IMG_3988

Bustos de heróis romanos e monumentais esculturas em mármore, além de outras em fragmentos, testemunhos de um tempo em que o lugar era um antigo mercado romano construído pelo imperador Traiano (112 e 113 d.C), e hoje transformado em Museu do Fórum Imperial, se misturam às roupas de estampas e decorações excêntricas, assinadas por estilistas e empreendedores não menos famosos.

IMG_3912

Sorvetes bordados em vestidos assinados pelo italiano Enrico Coveri, outro modelo insólito é o vestido-ovo da estilista espanhola, Agatha Ruiz della Prada,

IMG_3991

um tomara-que-caia inteiramente confeccionado por raízes, de Tiziano Guardini, sapatos artesanais de Salvatore Ferragano,

IMG_3890

bolsas em tecido decorado com cerejas, de Louis Vuitton. Isso é ainda é pouco, tem mais.

IMG_3892

As diferentes jóias de Gianni di Benedittis, que utiliza em seu desenho o formato de garfos e macarrão.

O objetivo da exposição, segundo os curadores, é de mostrar o diálogo entre a moda e o alimento. “A  moda alimenta a mente, o alimento nutre o corpo”, justificam os curadores Stefano Dominella e Bonizza Giordani Aragno.

IMG_3916

Os grandes costureiros fazem o resto. Criaram ao seu bel’prazer as mais exóticas e diferentes vestimentas, destacando ainda o longo feito de algodão, decorado com bolachas e espigas de trigo, assinado pela estilista que vestiu artistas famosas como Andrey Hepburn- a italiana Fernanda Gattinoni.

IMG_3933

A exposição foi realizada em função da EXPO2015, realizada em Milão, Itália, em junho, cujo tema central foi comida. São 160 peças entre roupas e acessórios expostas na mostra que estará aberta até primeiro de novembro.

Olhar Crítico

O destaque dado pelo PanHoramarte é puramente para entretenimento de seus leitores no Brasil, sobretudo àqueles que apreciam viajar em pensamento, considerando a  distância em que se encontra a exposição. Enfim, visitá-la não é como dar uma passada em São Paulo para apreciar um grande evento.

Apresentar essa mostra incomum e ao mesmo tempo tão refinada, tem a finalidade de oferecer ao leitor a dimensão do significado alimento e moda na visão dos italianos e como eles valorizam o que é deles. Dois temas que se unem sem divisões e fronteiras e com total liberdade de criatividade. Talvez no Brasil seria considerada brega e motivo de zombaria, até para encobrir aquele velho complexo de “vira-lata” que muitos brasileiros insistem em alimentar.

 

DSC03578

A sensação de encontrar a alma de uma cidade como Roma

A luz bruxuleante de Roma à noite nos monumentos antigos dá um tom de mistério e magia.

A sensação de viver em duas dimensões do tempo, passado e presente, me impressionou muito quando percorri as ruas de Roma, numa madrugada de primavera, pela primeira vez.

Ela é mágica no silêncio da noite, com seus monumentos iluminados, às vezes bruxuleantes pela sombra dos ciprestes centenários, suas fontes que jorram para o alto, jatos de água cristalina, que dançam e brincam com os seus olhos, esculpindo silhuetas, que em segundos se desfazem no ar.

DSC03579

Cenário fantasmagórico

Neste cenário fantasmagórico parece que o passado toma conta da cidade durante a noite, vive o seu cotidiano, enquanto o mundo moderno dorme. Desta forma poética me dei conta que já era parte da cidade eterna, que conta uma história a cada quarteirão que se caminha, a cada obra de arte exposta em museus e igrejas, em cada esquina que se encontra a imagem de uma “madonna” , incrustada na parede, no muro, para oferecer proteção aos transeuntes.

IMG_3982

Um caso de amor

Este caso de amor entre eu e Roma começou há quase uma década quando a conheci  em 2007, ocasião em que fui aprender italiano numa escola para estrangeiros, por um mês. Foi amor a primeira vista. Me fez buscar novas alternativas para voltar à cidade eterna. E voltei. Entre 2009/2010 me matriculei na La Sapienza Unvesità di Roma como aluna ouvinte, nas aulas de crítica de arte. Foi uma experiência magnífica cultural e intelectual.

E o interessante, no meu entendimento, foi sentir a evolução das sensações como forasteira. Esta receita serve para todas as cidades que visito, mesmo não falando nada do idioma local. Antes não viajava para lugares muito diferentes sozinha, tinha medo de tudo, e achava que iria me perder na primeira esquina que enfrentasse numa caminhada turística. Ledo engano.

Cidade tem alma, coração e estilo

A cidade é como um ser humano. Tem alma, coração e estilo. Você precisa perceber suas características mais simples, suas esquinas e ruas escondidas, observar seus detalhes para conseguir se sentir parte dela.  Aí acontece o encontro com a alma da cidade. Se precisa de muito tempo para isto?

Não!

Este encontro se dá no momento em que você não sente mais medo do desconhecido ou insegurança dentro de uma comunidade. E um detalhe: o encontro com a alma da cidade somente se dá quando não nascemos no lugar.  Os romanos, por exemplo, compõem a alma de Roma e não percebem as sutilezas que a personalizam como cidade. São eles que a construíram na cultura e no seu estilo.

DSC03546

Roubou meu coração

Assim, nestes anos todos, se posso venho sempre “matar a saudades” da cidade que roubou meu coração. Depois de ter passado a fase de deslumbramento, ter conhecido também os seus defeitos mais obscuros – o stress romano, embora tenha feito amigos maravilhosos – percebo eufórica que tenho Roma “na palma da minha mão”.

Pretensiosa!

Encontrar com a alma da cidade  eterna é privilégio para poucos, sei disso, não riam e nem me invejem, mas que pode tornar-se de muitos, se tivermos coragem e o propósito de promover esse encontro. Para aqueles que ainda não poderão provocar um encontro com esta charmosa cidade tão distante do nosso Brasil, vou dividir com vocês a minha experiência falando sobre as coisas que vejo nela, claro, sempre com o olhar da poesia e da arte.

Piano, piano (devagar, devagarinho), como dizem os italianos, é possível sentir-se parte!

 

 

contoluiz

Que mal lhe pergunte

Quando olhei a fila quilométrica esperando o meu ônibus é que dei conta do grande desastre de ter chegado o mês de março e com isto, recomeçado as aulas. Principalmente porque o ônibus que queria era compartilhado pelos jovens alunos, a caminho de suas escolas, todos identificados pelos seus uniformes.

Desanimado, assumi o último posto da imensa fila.

Depois de uma espera irritante chegou o primeiro ônibus, sucedeu-lhe outro e outro, mas a fila progredia numa morosidade angustiante. Eis que ocorre um milagre tão inesperado como só um milagre consegue ser: um único e misterioso ônibus passa diante dos meus olhos com a plaquinha de identificação de rota dizendo que seu destino me serviria. E melhor, parou lá adiante da fila sem ninguém entrar!

Corri desesperado, mas quando me aproximei a porta estava sendo fechada.

“- Tem que ser mais esperto, ô meu!” Gritou o motorista reabrindo a porta.

Puxa, sorri por dentro, o veículo estava vazio e eu me esparramei numa cadeira individual como um ‘pachá’. Por uns minutos fiquei extasiado, desfrutando a gostosura do momento e a grande sorte do dia.

“- Você vai para o terminal do Portão?”

Despertei do estado alfa, dando conta que o motorista estava perguntando para mim. Burro, ainda olhei para os lados para me certificar que era o único passageiro.

“- Vou sim!”

“- Mas vamos ter que fazer uma parada técnica!”

Que seria isto? Olhei para o cobrador que confirmou com a cabeça. Logo o motorista freou o veículo naquele sibilar forte, levantou-se e deu uma gostosa espreguiçada.

“- Me compre uma Tribuna!” ordenou ao cobrador.

“- Com que grana?”

O homem enfiou a mão no bolso e escolheu algumas moedas.

O cobrador foi e voltou, saltando da calçada para o ônibus num salto olímpico. ‘Podemos partir’, pensei.

“- Sobrou troco, não? Volte lá e me traga um ‘Papa Tudo”

Lá foi o cobrador de volta à banquinha.

“- Acabou.”

Só então o motorista me viu observando-o. Desconfiou:

“- Que mal lhe pergunte o que faz?”

“- Sou aposentado!”

“- Benza Deus… Cismei que o amigo era da prefeitura.”

Entendi que ele pensou que era um fiscal.

Terminada a leitura do jornal, o balanço das moedinhas do cobrador, finalmente o carro começou a se movimentar. Mas nem tanto. Logo no próximo sinaleiro parou. Abriu a porta e chamou alguém. Olhei curioso e vi uma mocinha, fantasiada de shortinho curto e blusinha sexy toda colorida, com grandes letras de uma imobiliária.

A moça colocou seu rostinho pelo vão da porta:

“- Balas!” disse o motorista.

Ela correu até a calçada e trouxe um punhado de balas. Ao repassar para o motorista algumas caíram.

“- Me dá um desses prospectos para enleá-las!” ordenou o motorista.

Então reparei na longa fila de espera atrás do ônibus. E começou um buzinasso. Acostumado, o motorista nem deu bola. Segurou o ônibus até que a mocinha atravessasse a rua.  Aí foi o cobrador que reclamou:

“- Não vai sobrar nenhuma?”

“- Negativo! Se estava a fim, pedisse!”

Finalmente, seguiríamos incólumes ao destino? Não com eles. Logo paramos.

“- Uma calota!” gritou o motorista.

Uma o que?

O motorista apontou para um lugar distante.

“- Vá lá pegá-la!”

O trânsito estava brabo e ficamos ali parados até acalmar. Quando o sinaleiro deu um refresco, o motorista engatou uma marcha ré de uns trinta metros. Enfiou a cabeça para fora da janela orientando o cobrador:

“- Mais à direita… Ali, no cantinho!”

Olhei o jovem driblando os carros. Finalmente eis ele todo faceiro de calota na mão:

“- Já tenho duas dessas… Com essa, só me falta uma!” bradou o motorista com um sorriso nos olhos.

Imaginei que estava construindo um carro com as peças encontradas na rua. Aliás, achei a calota tão feia, de plástico preto, toda esfolada, tão diferente das cromadas e brilhantes que na minha infância corri atrás ao vê-las se desprender das rodas dos carros de minha saudade.

Enfim, novamente estávamos em movimento. Bem perto do terminal do Portão, ao cruzar a Rua República Argentina, um fusca atravessou-se na nossa frente. A brusca freada lançou-me contra a cadeira da frente e no choque, espremi meu dedinho mindinho da mão direita contra um suporte metálico.

“- Desgraçado!” gritou meu motorista.

“- Filho da puta!” respondeu nosso inimigo. E ainda acrescentou aos brados que estava na preferencial.

Enlouquecido, o motorista veio me cobrar, como se a culpa fosse minha:

“- Preferencial? Cadê a placa? E o transporte coletivo não conta?”

O homem não falava, gritava descontrolado apontando para mim:

“- Um lazarento desses vai prejudica-lo!”

Eu? Não entendi meu papel naquele espetáculo lúdico. Mas, calma, ele tinha seus argumentos:

“- Esta é uma linha experimental. Você é testemunha que ela é rápida porque desvia do centro, não concorda? Se bato o ônibus, vai contar na avaliação dos ‘home’ e eles podem suspender a linha prejudicando justamente o senhor que é usuário e depende dela… Não concorda?”

No limite de minha paciência desliguei sua fala da minha cabeça. Mas ele insistia:

“- Não concorda?”

Não, não concordava com nada. Raivoso com a dor no mindinho, eu armei mentalmente uma resposta que na hora não tive coragem de falar, mas na hora da saída iria esbravejar: ‘ se esta é uma linha experimental, sugiro que a prefeitura coloque-a como uma viagem de aventuras, e, claro, com a mesma tripulação’.

Bom, finalmente o ônibus encostou-se à praça do terminal. Na saída da catraca, parei e olhei fixamente para o motorista, pronto para declamar meu protesto. Mas ele notou meu interesse e se adiantou:

“- Está entregue! Vá com Deus!”

Está certo, me acovardei. Calado e com dor no mindinho, acabei engolindo minha revolta.

Acaso sou louco?

 

 

(Do livro inédito, ‘Pobrete, mas alegrete’)

 

matruska

O amor é uma escada quebrada

 

Por Erol Anar / O amor é uma escada quebrada que subimos através de muito esforço e depois de muito cansados, chegamos ao topo. Lá há um porto fechado, nossos portos estão fechados para amores, para amigos e para os outros e até para nós mesmos.

 

Eu subi até você por uma escada quebrada,
mas lá todas as portas estavam fechadas
para o amor, o tempo e a vida…
Parecia uma matruska,
você estava escondida dentro de você mesma…
Mas eu sou uma pessoa
que aprende enquanto perde,
E que quando erra tenta de novo,
que lembra enquanto esquece,
que quando vai para longe
ao mesmo tempo fica mais perto…
Eu sou um viajante que ainda não sabe seus segredos
e me movo continuamente, no caos que existe dentro de mim…[1]

 

Depois eu estava tirando escadas quebradas existentes dentro de mim e joguei-as fora. Encontrei uma escada rumando para o infinito e subi em direção ao meu próprio eu. Subia agitado como um escalador indo para o topo da montanha mais alta do mundo. Queria ficar totalmente na liberdade e abrir todas as minhas portas ao final daquelas longas escadas.

 

Eu me esqueci de você pelos caminhos distantes
E por lá me lembrei de mim …

[1] Próprio autor.