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Espiritualidade e luz na pauta das bienais

Duas grandes bienais, a de Veneza em 2013, e a Bienal de São Paulo em 2014, colocaram em cena obras com conceitos que fazem o observador refletir sobre espiritualidade e religião. A Luz do Mundo será o tema da Bienal Internacional de Curitiba, em 2015. Coincidência? Certamente que não é.

É a visão crítica de um tempo de contrastes em que o homem se desconstrói pelo consumo e pela individualidade e na mesma medida, busca entender o porquê da sua existência. Essa foi a curadoria geral da Bienal de Veneza de 2013, proposta pelo italiano Massimiliano Gioni.  A ideia era ir mais à frente na questão, muito mais do que reunir artistas com seus impulsos criativos, segundo ele.

Para Gioni foi mais importante se perguntar naquele momento “qual é o mundo dos artistas?”. Com este foco se inspirou no sonho do americano  Marino Auriti, de criar um local que reunisse o saber do mundo. Com essa premissa, o Palácio Enciclopédico – abriu espaço para mostrar o Livro Vermelho, de Carl Gustav Jung, o psicanalista suíço que procurou desvendar os mistérios da mente e criou o conceito do inconsciente coletivo.IMG_20151110_154203

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Insólito: Como um muçulmano me inspirou a rezar o terço

Quem tem fé, não tem medo!

Quando o taxista que fazia o trajeto entre o aeroporto até a cidade lendária  de Istambul, na Turquia, olhou para trás e percebeu o meu pânico, estendeu a mão e me ofereceu um Masbahas.

Imediatamente, o medo passou e diretamente fixei meu olhar aos olhos daquele homem simples, que  não falava patavina de inglês (cá entre nós eu também não), e nada de qualquer outro idioma que não fosse o turco, entendi o seu recado silencioso. A mensagem estava dada somente com um gesto e um olhar. Quem tem fé, não tem medo!

Masbahas

Este Masbahas, que  é um objeto usado pela religião islâmica,  guardo até hoje como um talismã de bom augúrio e proteção.

Ele é composto de um cordão de contas azuis, cujas pontas se encontram formando um colar com um pingente ao final, muito parecido com o rosário católico. Masbahas ou qualquer que seja o nome para cada povo – grego ou árabe, é usado para as meditações, orações e pedido de auxílio quando a pessoa se sente nervosa.

Presente igual eu recebi também quando era muito jovem. O primeiro Masbahas veio de um namorado que fez uma viagem à Grécia. Quando me deu de presente contou que viu diversos homens andando com o cordão na mãos, dedilhando as contas.

“É para acalmar os nervos”, informou.

Por que fiz esta introdução?

Para mostrar que o episódio do motorista em Istambul e a informação do namoradinho da juventude foram as fontes de inspiração para chegar até o rosário católico e como adquiri o hábito de rezar o terço.

Rezar um terço inteiro

Antes também preciso contar que vivi alguns anos convivendo com depressão e medo. O pânico e a depressão são doenças que se instalam na mente da gente sem pedir licença. Infelizmente elas fizeram parte de minha vida por um período de tempo ao ponto de ser tratada e medicada, primeiro com medicamentos alopáticos e por fim com a boa Homeopatia unicista(de Hahnemann), que me curou, com o reforço de fé e determinação.

Já na Itália em 2009 quando estive por um período para estudar,  o medo de estar só e sem ninguém ia e vinha, à noite, quando  estava comigo mesma no quarto do apartamento que eu e minha prima alugamos em Roma. Sozinha…

É claro que não estava. Mas como convencer a minha mente que teimava em me apavorar e numa angústia sem fim não me deixava dormir . Eu estava apenas fora do meu ninho habitual e longe das minhas filhas. É a mais horrível das sensações. Coração bate aceleradamente e, como um filme, a tua mente projeta todas as possibilidades de tragédias….É algo sufocante que te deixa sem condições de raciocínio.

Este foi dos muitos estados de pânico que tive no decorrer da doença.Contudo, não me entrego facilmente. Num destes dias horrorosos lembrei do meu talismã turco que estava comigo em Roma e lembrei da informação do namoradinho. “Eles usam para acalmar os nervos”.

Comecei a alisar aqueles continhas suavemente tentando desviar o meu pensamento para algo mais elevado, como uma meditação. Tive momentos que comecei a rezar Ave-marias como se fossem um mantra e vejam só, deu resultado.

Dedilhar as contas

O fato de sentir nos dedos as contas, como num ritual, fazendo orações me dava uma espécie de sonolência para em seguida me sentir serena. Acalmava.

Contudo, usar o Masbaha até chegar ao rosário católico tem mais história. Quando visitei a Basílica de São Pedro, no Vaticano, encontrei milhares de modelos de terço para serem comprados como lembranças turísticas. Consumista ao extremo de quinquilharias turísticas, comprei vários, inclusive um me dei de presente. Aquele que é de praxe todo mundo levar, o terço com as contas imitando pétalas de rosas e perfumado.

Dias depois recebo um telefonema da minha filha mais nova me informando que ela pretendia viver no Rio de Janeiro porque precisava buscar novos horizontes de vida e com uma amiga que não seria a companhia ideal. Aí, neste momento, o sentimento foi de uma mãe muito preocupada e que vivendo longe da jovem não podia fazer nada além de rezar. Sabia que o objetivo dela era encontrar um companheiro e não se jogar numa aventura sem rumo.

Reza com fé

Peguei o terço de rosas e rezei por inteiro, do meu jeito, com ave-marias e pais-nossos, sem as formalidades de primeira ou segunda anunciação, rezando como se tivesse repetindo mantras e com a fé religiosa que busquei durante toda minha vida. Diga-se de passagem, sou uma católica multidisciplinar, com o pé na Umbanda, no Budismo, no Taoísmo e simpatizo com as ideias de Lutero, pois era a religião de meu pai.

Assim, rezei cinco dezenas em Ave-marias com todo o fervor, os pais-nossos entre as dezenas, glória ao pai, desejando o melhor caminho para ela.

Coincidência? Não deu uma semana ela me ligou e contou que tinha encontrado um “cara legal”. “Mãe estou namorando”, disse. “É… que bom!”, respondi e timidamente perguntei: “não vai mais morar no Rio de Janeiro?  “Não, mãe, aquilo foi só uma ideia”.

Hoje ela está casada e feliz com o namorado que evitou a sua ida ao Rio com alguém que não lhe faria bem.

Muitas rezas no terço me fizeram bem e fazem bem a quem eu quero bem.

No caso específico do meu amor que vive na Itália, foi também uma situação inusitada, quando se preparava para entregar o Trabalho de Conclusão de Curso e temia o professor que era muito rígido, senti que ele precisava de uma ajuda num nível mais elevado e rezei por ele. O temido professor de uma hora para outra abriu espaço para meu amor  e avaliou com cuidado seu trabalho que resultou no diploma universitário. Claro que meu italiano é esforçado e inteligente.

– A história foi assim: no meio da conturbação perguntei o nome do professor avisando que era para rezar pelos dois. “Stefano”, me respondeu. “Mas, por favor, reze pelo Deus dos católicos”, emendou o italiano fervoroso e preocupado com a diversidade religiosa do brasileiro. rsss…

Naquela noite, antes de voltar para o Brasil, rezei com muita fé pensando num sentimento de paz e parceria entre os dois,  aluno e professor.

Em novembro recebi um e-mail do meu amor me agradecendo pelas orações. “Acho que foi um milagre porque ele não deu chances para mais ninguém, somente eu passei”, repete isso diversas vezes como se quisesse se convencer da história.

Então, acompanhem o meu raciocínio. Um hábito que começou de mansinho, para resolver um problema e por necessidade foi ajustado em outra situação. Um hábito que acima de tudo fortaleceu a minha fé.

Medo jamais! Corro em busca do meu terço ou do meu Masbahas….

Feliz Natal!  Um 2015 com muitos projetos de paz e amor!

 

* Rosário –  é uma palavra derivada do latim, rosarium, rosaio, e começou a ser usada no século XIII em sinal de devoção porque as orações formam como uma coroa de rosas para Nossa Senhora.  ( Fonte: dicionário O Devoto – Oli)

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O carnaval começou pelo cristianismo

Ninguém sabe como começou o carnaval na história da humanidade.  Há indícios e relatos em regiões onde o cristianismo foi difundido.

Nenhuma organização deseja ser autora daquilo que é o oposto do que se prega…

Ao rigor da religião cristã é difícil se responsabilizar pela invenção de uma festa que permite a falta de decoro e loucuras cometidas em alguns dias de folia durante o ano.

Se analisarmos a própria palavra folia, tem origem em folle, em italiano follia, e pelo dicionário Devoto, significa: estado de alienação mental, loucura e demência.

Por que se usa tanto uma palavra tão forte para definir o que está entre as manifestações mais populares do Brasil e que é rentosa como espetáculo em muitos países?

Uma resposta simples. O carnaval envolve eventos culturais que foram evoluindo ao longo da história, como os ritos pagãos e hábitos medievais.

 
Carnaval em Veneza 2006. Foto Mari Weigert

Uma pista interessante nos dá o filósofo suiço Alain de Botton, no livro Religião para Ateus, quando defende a ideia que as religiões são sábias e conta sobre a Festa dos Loucos muito difundida na Europa, no período medieval.

“São sábias ao não esperar que lidemos sozinhos com todas as nossas emoções. Sabem como pode ser confuso e humilhante admitir desespero, luxúria, inveja ou egomania”.

O escritor, para justificar essa ideia, conta que o cristianismo medieval compreendia a dívida em que a bondade, fé e doçura têm com seus opostos. Uma dicotomia. Durante a maior parte do ano pregava solenidade, ordem, moderação, camaradagem, sinceridade, amor a Deus e decoro sexual, e, então, na noite de ano-novo, abria as portas da psique coletiva e dava início ao “festum fatuorum“, a Festa dos Loucos.

Durante quatro dias, o mundo ficava de cabeça para baixo e cometiam as mais absurdas aberrações.

“Membros do clero jogavam dados em cima do altar, zurravam como burros em vez de dizer amém, seguraram os livros sagrados de ponta cabeça, urinavam em cima das torres dos sinos….(..)

Em 1445, a Faculdade de Teologia de Paris explicou aos bispos da França que a Festa dos Loucos era um evento necessário no calendário cristão, “para que a insensatez, que é a nossa segunda natureza, e inerente ao homem, possa se dissipar livremente, pelo menos uma vez ao ano. Barris de vinho de tempos em tempos estouram se não os abrimos para entrar um pouco de ar.

Um estopim

Todos nós, homens, somos barris reunidos inadequadamente, e é por isso que permitimos tolice em certos dias: para que, no fim, possamos regressar com maior fervor ao serviço de Deus.

A moral que devemos tirar é que, se desejamos comunidades que funcionem bem, não podemos ser ingênuos, quanto à nossa natureza. Precisamos aceitar a profundidade de nossos sentimentos destrutivos, antissociais.

 

 

Imagem fotografada do livro Religião para Ateus
Imagem fotografada do livro Religião para Ateus

Instantâneos amador de um bloco de carnaval brincando perto do mar, com alegria e muita folia, em 2015, na praia de Ponta Negra em Natal. Vale lembrar que era uma Brasil diferente em todos os sentidos, político, social, sobretudo num contexto que insere o tempo da pandemia. Independente do Covid -19, uma peste que atinge o mundo e que nos retira a nossa máxima diária que é o abraço carinhoso, o brasileiro vive hoje em confronto direto de ideias. As disputas políticas autorizam a violência, a descriminação e o aniquilamento do nosso bem maior que é a cultura e arte. (pequeno texto atualizado em fevereiro de 2021)

 “(…)Não deveríamos exilar na periferia as festas e a libertinagem para serem limpas pela polícia e condenadas por comentaristas. Deveríamos dar ao caos um lugar de destaque pelo menos uma vez por ano, designando ocasiões em que podemos ficar brevemente isentos das duas maiores pressões da vida adulta secular: ser racional e fiel.Deveríamos ter permissão para falar bobagens, amarrar pênis de lã em nossos casacos e cair na noite para festejar e copular aleatória e alegremente com estranhos e, então, retornar na manhã seguinte para os nossos parceiros, que também teriam saído fazendo coisas semelhantes, ambos cientes de que não era nada pessoal, que foi a Festa dos Loucos que provocou as ações. (…)”
Vale a pena convidar Alain Botton para visitar o Brasil nos quatro dias de carnaval….

Se o carnaval brasileiro virou espetáculo não importa. Se está agora a serviço do capitalismo também não importa. O que importa é o espírito, a essência da coisa… rsss..

A Festa dos Loucos era medieval mas ainda repercute com toda força neste país verde-amarelo. Para aqueles que resistem em libertar a sua fera, vale a pena lembrar que faz bem à psiqué. E mais….  vá em frente e solte suas amarras sem dó por que a história confirma tudo e se vasculhar mais vai sentir as mãos da IGREJA  abençoando toda esta folia.

Um conselho: sinta e desfrute carnaval com o olhar da arte que a emoção será bem mais colorida e alegre.

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Os prazeres e desprazeres de uma viagem insólita

 

Eduardo acomodou-se entre dois bancos, o meu e de minha irmã e dali para frente a prosa começou.

Aquele homem era alto demais para permanecer em pé naquele micro-ônibus apinhado de gente rumo a Natal, no Rio Grande do Norte, e para se acomodar melhor começou a pedir licença, passar de um lado para outro e num contorcionismo circense, com o seu corpo magro e esguio conseguiu chegar ao final do corredor e lá, sentar-se no chão e de modo mais confortável prosseguir a viagem.

Aí começamos a conversar

Entre curvas e solavancos tudo foi tema para jogar “conversa para fora e não ver o tempo passar”. O clima, a fantástica beleza quase que inexplorada da Barra do Cunhaú, uma praia localizada no litoral Sul distante duas horas e meia da capital potiguar, o perigo da poluição, do lixo destruir sem dó aquele paraíso tropical, fizeram parte deste conversa que fez o tempo passar rápido. A partir daí, o Dudadaboneca como é conhecido na comunidade praiana, revelou aquele dom que poucos têm: o de declamar um verso tirado com emoção lá fundo do coração.

Até rimou….

Neste momento o cenário mudou. A viagem ficou bem mais leve e animada. Todos que estavam por perto esticaram o ouvido para não perder nenhuma parada daquela prosa rimada.

Neste grupo estavam as turistas, as moças que já conheciam Eduardo lá da Barra, gente voltando para trabalhar na cidade e moradores locais. O poema de cordel “Os sete constituintes” ou como quiserem chamar Os animais têm razão”, de Antonio Francisco, potiguar de Mossoró, foi exaltado pelo Dudadaboneca naquele fim de tarde, numa viagem enfadonha dentro de um micro-ônibus, que além de lotado estava cheio de problemas mecânicos.

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Artista

A companhia de um artista trouxe alegria e tranquilidade de tal maneira, que na hora em que o motorista parou o veículo para ver o que era aquele cheiro de borracha queimada, ninguém falou nada…

Assim, sem pânico e reclamações, num tranco lento e cuidadoso o moço da direção retomou a viagem dizendo que o veículo estava só com a roda meio travada e que ele ia tentar chegar até Natal.

Resumindo a história, sem que pudéssemos sentir tédio ou medo chegamos sãs e salvas em Natal em outro ônibus e com um sorriso nos lábios. A viagem foi divertida e prazerosa apesar dos percalços.

Obrigada Eduardo por alegrar nosso trajeto com arte e nos apresentar um poema tão verdadeiro!

Barra do Cunhaú

*Na Barra do Cunhaú, Eduardo – Duda da Boneca – é uma espécie de embaixador cultural no período em que passa veraneio naquele paraíso na terra. Dança com sua boneca de piche, canta e brinca com uma turma que gosta de música e de prosear.

Gente que respeita a cultura popular e só precisa de sanfona, trombone e bons instrumentos musicais para animar uma boa roda, sem a necessidade de arrebentar os ouvidos do vizinho com músicas de mau gosto e um som altíssimo. Em seu projeto Alvorada – acorda às 5h – às 6h percorre o bairro com um jeep temático, antes uma bicicleta gigante, e embala a vizinhança ao som de alguns boleros a Waldick Soriano.

A realidade do dia-a-dia vive em Natal, quando cumpre seu papel como um militar do exército brasileiro. “Sou artista desde que nasci e quando entrei no exército já fui consciente de que precisava ajustar esses opostos – arte e a vida militar. E deu certo”, diz ele sorrindo.