Cruz sem sofrimento nos mosaicos da Basílica de San Clemente

O homem que não quis limpar o brinco
26 de março de 2019
A tradição dos bonecos dançarinos na arte popular potiguar
11 de abril de 2019

Cruz sem sofrimento nos mosaicos da Basílica de San Clemente

O ‘Triunfo da Cruz’, uma obra em mosaico que cobre a abside principal da Basílica de San Clemente, em Roma, é um convite à reflexão sobre o papel do cristianismo ao longo da história.

A leitura feita pelos artistas da escola romana, que trabalhavam com mosaicos, do século XII, dá abertura para novas reflexões e como era interpretada a crucificação de Cristo nos primórdios. A obra da abside é repleta de simbologia e não pontua a questão do sofrimento de Jesus na cruz.

O fato da base da cruz estar representada com elementos vegetais que, segundo estudiosos em arte e religião, significa regeneração e salvação do pecado, nos mostra um outro olhar do catolicismo sobre o sofrimento na crucificação. É considerada a antiga árvore da vida.

O bem e o mal

Na iconografia dos mosaicos do Triunfo da Cruz, em San Clemente, os apóstolos estão representados pelos  12 pombos brancos, colocados junto com Cristo crucificado. A cada lado da cruz,  à esquerda, está  Maria e  à direita, São João, acima a mão de Deus protegendo a cruz que vivifica  e abaixo, depois da ramificação verde, a imagem da serpente e do cordeiro – o bem e o mal.

A cruz abre para os quatro rios do paraíso e apresentam os quatro doutores da igreja,  Santos Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e Gregório, que são as figuras aladas. As ovelhas que representam os fiéis.  Os belos mosaicos da abside central de San Clemente documentam  a história dos primórdios do cristianismo no Ocidente, num momento em que a igreja estava começando a impor o seu poder político.

Antes um templo pagão

A construção da Basílica, vizinha ao Coliseu, teve quatro níveis arqueológicos distintos. Primeiro uma igreja cristã primitiva citada por São Jerônimo em 385, soterrada e descoberta em 1861, que mantém em seu interior também fragmentos de um templo pagão romano. Depois disso uma outra Basílica foi construída e também destruída por um incêndio em 1084 (d.C).

Os mosaicos foram feitos entre os anos de 1.120 a 1130, sob o pontificado do papa Pascoal II. O modelo, segundo estudiosos, segue o cristão primitivos e alguns críticos evidenciaram a reutilização de peças do antigo mosaico perdido no incêndio.

Em outras palavras, o trabalho artístico dá um novo significado às formas pagãs de falar sobre Cristo. O resultado final dessa integração torna o mosaico de San Clemente uma representação teológica da reforma gregoriana: a igreja tinha mais poder que os reis.

Arte Bizantina

A arte do mosaico, conhecida como Arte Bizantina, foi levada para Europa por causa da conquista do Oriente pelo  império romano e sua instalação em Constantinopla. Entrou pelo Sul da Itália. A Catedral de Monreale é um exemplo, Ravenna também com suas magníficas igrejas cobertas de mosaicos.

Possui uma estética fundamentada na harmonia das composições, na forma, na cor, no espaço, na luz irreal, que devia criar uma sensação de infinito e de eterno, para estimular a abstração. A técnica era muito utilizada nas antigas tradições artísticas orientais.

Comentários Facebook

comentarios

Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *