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A geração de Guernica

CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9469068

Mural_del_GernikaFrom Wikimedia Commons, the free media repository

Escrevo essas linhas depois de ter visto o documentário “La generación de Guernica” 13 anos após ter visto esse filme pela primeira vez ao chegar na Espanha, para estudar. Nessa época me empapava de todos os filmes, músicas, documentários e notícias que viessem em espanhol como forma de aprender o idioma. Ia todos os dias a biblioteca emprestar DVDs e livros que contassem um pouco da história do país, que então era meu destino de estudo e que, hoje, acabou se tornando a minha casa.

Hoje, o coração me pesa… e com esse pesar sinto que tenho que escrever sobre esse documentário que tanto me impactou, e que com certeza impactará os mais sensíveis. Mas não quero escrever sobre ele por uma pieguice sem sentido, um sentimentalismo barato; senão porque sinto a necessidade de contar uma história triste e recente do passado dessa terra, que acabou tendo consequências para muitos outros países. Porque essa história jamais deve ser esquecida.

A geração de Guernica foi um documentário realizado pela televisão Basca. Retrata a história das crianças que foram enviadas a vários países pelos seus pais, depois dos bombardeios da cidade Basca de Guernica pela Legião Condor de Hitler, em apoio ao General Franco. Esse bombardeio teve como objetivo, de um lado, testar os armamentos alemães para a sua guerra, e de outro atacar uma das cidades consideradas fontes de resistência da Guerra Civil Espanhola.

O documentário oferece testemunho dos que na época eram criança e tiveram que abandonar os seus pais, as suas famílias, e o seu país para estar a salvo de tudo que ocorria em Espanha nessa época.

Lembro-me bem de ter visto esse documentário com um amigo mexicano há mais de 13 anos, naquela sala de estar, em Pontevedra, e de ter me impactado tanto que até hoje, algumas imagens não foram capazes de sair da minha cabeça.

A guerra civil Espanhola foi um conflito que durou de 1936 até 1939 e que dividiu a Espanha. De um lado os Republicanos lutavam para restaurar a recente república que havia no país, de outro estavam os militares comandados pelo “General Franco”, que visava tomar o poder e tornar-se o chefe de Estado, levando a Espanha a uma ditadura de quase 40 anos.

Nessa época muitos pais de famílias, e principalmente depois do massacre de Guernica, sendo ou não simpatizantes republicanos temiam pela vida dos seus filhos e começaram a se organizar para enviá-los fora.

O documentário revive momentos muito duros, principalmente porque os filhos, as crianças que subiam a bordo do barco La Habana, tiveram que subir sozinhos. Estamos falando de um barco com 4000 crianças, tristes e famintas, porque nessa época a fome já tinha alcançado a muitas famílias espanholas. As crianças variavam entre 5 e 15 anos, mas muitas crianças com 4 anos e 16 também subiram, mentindo sua idade, incentivado pelos pais que tinham mais medo do que podia acontecer ali, que no país que estavam destinados. Portanto, subiram a bordo de um barco que tinha vários destinos: México, apoiado pelo então presidente Lázaro Cárdenas; União Soviética, também apoiado pelo governo Stalinista; Inglaterra e Bélgica, sem apoio governamental mas com ajuda de voluntários da Cruz Vermelha e de outras organizações não governamentais que acabaram se compadecendo do que ocorria na Espanha.

A história de exílio destes meninos não se limita ao primeiro barco que zarpou do porto de Barcelona rumo a esses países. Com o passar do tempo, foram organizando mais e mais barcos e estima-se que entre 1937 e 1938, cerca de 32 mil menores foram enviados a estes países. Todos os pais e inclusive os governos de tais países pensavam que ia ser por um curto período de tempo.  Mas a história sempre tem o poder de surpreender-nos e a guerra civil não terminou pronto, o que levou a estadia dessas crianças durar mais tempo do necessário, vivendo por anos no país estrangeiro, sendo educados ali e adotados por famílias locais.

Muitos perderam seus irmãos no caminho. Em um barco com mais de 4000 crianças era fácil que um não encontrasse mais ao outro. Outros, acabaram em destinos que não foram planejados pelos pais; crianças e família inteiras que iam a Inglaterra, acabaram se perdendo e descobrindo só anos mais tarde que o irmão acabou indo para Bélgica por engano.

Os que foram para México ficaram em Morelia, e coincidentemente quando estive ali no ano de 2009, conheci um menino que era neto de uma senhora que foi parar no México por essas circunstancias.

Depois houve os que foram para a União Soviética, em que o governo tratou de traduzir todos os livros ao espanhol e trazer professores para ensiná-los, tudo com o objetivo de educar as crianças no idioma do seu país.

Em 1939 quando acaba a guerra civil, Espanha está devastada, e Franco reclama a volta das crianças da Inglaterra e Bélgica, coisa que muitos pais se negam já que o país atravessa pela destruição, pobreza e fome extrema. Quando tudo que parece ser tão doloroso pensamos que vai acabar, a vida quer seguir dando golpes, medindo nossa resistência e vontade de sobreviver. Depois de anos, muitas crianças já não sabem quem são seu pais, muitos pais já não sabem quem são seus filhos… muitos pais acabam escrevendo aos seus filhos dizendo que fiquem onde estão, porque se regressam seriam só uma carga mais por toda miséria que estão passando.

Os que voltaram tiveram agora que enfrentar algo muito pior que a saudade e falta de cuidados dos anos vitais… enfrentam a fome. E uma fome, que como descreve um dos protagonistas, que lhe fazia comer as laranjas com pele, e o pão resseco de duas semanas. Os que ficam se vem imersos numa outra guerra, que tão só começa 5 meses depois de acabar a guerra civil: a Segunda Guerra Mundial.

Os que no México ficaram, quem sabe foram os mais afortunados de todos, já que não tiveram que passar pela guerra, mas sim de encontrar formas de sobrevivência com a mudança de governo, suas ajudas foram cortadas e muitas crianças, novamente, perderam a sua oportunidade de ser criança e tiveram que trabalhar.

Quando, por fim, a Segunda Guerra Mundial acaba muitos abraçam novas esperanças, já que Hitler e Mussolini perderam, muito provavelmente os países aliados se juntariam para tirar Franco do poder. Ledo engano. Nessa época, a preocupação deixa de ser Franco, deixa de ser o fascismo, e de repente, não mais que de repente, o mundo se volta contra a União Soviética.

E assim, com um sucesso detrás do outro o documentário “La generación de Guernica” vai compondo a vida de toda uma geração perdida; de toda uma geração assolada pelo mal humano, pela guerra e pela destruição, e desenhando a trancos e barrancos como cada um deles sai adiante, com as marcas e a cicatriz de uma infância não vivida.

De ele se pode tirar conclusões. Acho que entendo melhor muitos dos estereótipos que vejo na Espanha, seja pelo carinho e a importância que dão ao bom comer, como a importância que tem o estudo, o dormir debaixo de um teto, às ciências, à educação. Mas acho que a principal conclusão que tirei daqui é sobre o legado que queremos deixar aos nossos filhos e as futuras gerações.

O documentário toca fundo na alma, e essas linhas que escrevo contando tudo isso, o faço porque vejo a necessidade de contar essa história. Porque nos dias em que vivemos, a cada dia vejo mais pessoas com menos bagagem histórica e conhecimento dos fatos que hoje demarcam o que é Brasil, o que é Europa, o que é mundo.

Creio que há uma histeria geral por falta de conhecimento, e que hoje muitos que clamam medidas extremistas para erradicar a pobreza, a violência, não entendem nem querem entender de onde elas vêm e do porquê. Estamos perdendo a consciência do nosso passado e da nossa história; estamos esquecemos de muitos fatos recentes, fatos que definiram o seu rumo e que hoje explicam por que existem tantos imigrantes no Brasil, por que a União Europeia se formou, por que França e Alemanha que ontem foram inimigas hoje são países amigos, por que temos um estado do bem-estar, ou pelo menos, por que grande parte dos países europeus o tem?! A educação é necessária e o conhecimento é essencial para a formação de uma sociedade mais justa.

Porque, parafraseando a Guillermo Fatás, aqueles que não conhecem a sua história estão destinados a repeti-la. “La generación de Guernica” está aí para dar voz aos testemunhos de muitos daqueles que viveram nessa época e que em algumas décadas já não estarão aqui para contar esses fatos. Devemos, portanto, preservar, ver e compartir esses documentários, assim como muitos livros de história e matérias ao respeito. Devemos, nesse trabalho exaustivo, tratar de buscar a verdade, mesmo que ela seja frágil e vulnerável. Porque somente ela nos livrará dos absolutismos, dos extremismos e nos conduzirá ao futuro, ao futuro que esperamos…

Aos que desprezam a educação, aos que desprezam o conhecimento e aos que desprezam a história, lhes direi que sem ela não há possibilidade de futuro, entendendo-se futuro por um país mais honesto, mais justo, com mais possibilidades para todos.

 

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Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela, Jaqueline se identifica como escritora e "vinalogadora". Atualmente dedica-se ao marketing e a comunicação, promovendo eventos que conectam e promovem o diálogo entre o vinho e as artes em geral. Têm também vários projetos paralelos relacionados com as letras e o mundo do vinho. Promove formas mais sustentáveis de vida, sendo uma ativista do uso da bicicleta na cidade e de uma vida mais saudável, lenta e meditada. No seu tempo livre realiza trabalhos voluntários em Vinícolas ecológicas e (WWOOF) y recentemente criou o blog Vinálogos. Colabora com alguns blogs, lojas de vinho, e escreve contos, relatos, ensaios em inglês, português e espanhol.

1 Comment

  1. Susan disse:

    Querida, você é demais.

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