O legado de Francisco Brennand

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O legado de Francisco Brennand

É monumental o legado artístico do pernambucano Francisco Brennand para o Brasil. Visitar a Oficina Brennand,instalada nas terras do Engenho Santos Cosme e Damião, no Bairro da Várzea, em Recife, nos dá a dimensão dessa maravilha!

Não interropam este silêncio! Não interrompam este sonho!

É a meditação de início da visita.

Uma herança que envolve um contexto maior,  mais original para nós brasileiros. Envolve arte, criação, tradição, história do Brasil e ecologia.

Terra simbólica

O artista usou o barro para moldar suas obras e compor um território sagrado. As esculturas de cerâmicas que povoam tanto a área externa quanto a interna transportam o visitante a um universo onírico que representa a terra semeada por personagens simbólicos, que se entremeiam entre as figuras fálicas, óvulos fecundos, mitos e animais.

O obsceno e o sagrado estão num mesmo nível de importância na área externa. Por um lado, os seres fálicos em sentinela, pernas e nádegas de mulheres, óvulos em explosões.

De outro, Adão e Eva em total recato, escondendo suas partes íntimas. No meio dessa extraordinária criatividade de conceitos ergue-se o Taj Mahal talvez, um baldaquino, quem sabe, com sua cúpula azul e o pêndulo de cerâmica. O barro moldado!

Mariz Bertoli está correta quando diz que precisamos ampliar nosso olhar para entrar num lugar como este!

A professora, curadora e crítica de arte escreveu sobre Brennand, publicou livro e artigos sobre as obras do artista pernambucano. Vale a pena ler. Em especial o artigo a Redenção do Feminino, no jornal da Associação Brasileira de Críticos de Arte.

Feminino

Para entrar num local como esse é preciso “romper  a opacidade do olhar e deixar-nos inundar pelo olho de luz”, recomenda Mariza Bertoli. “É preciso percorrer as vias vias simbólicas que o artista, como demiurgo, nos propõe”,  diz ela,  em seu artigo A Redenção do Feminino, publicado no jornal do ABCA. Mariza descreve exatamente a sensação que nos envolve ao ingressar naquele ambiente único, silencioso, embora com obras que falam sobre a terra e o homem.

“Este jardim das delícias e dos horrores é rodeado de pássaros-serpente ordenados como sentinelas, que observam o espectador em todo o seu percurso até o coração pulsante da praça.  Sobre um espelho d´água, ergue-se o templo com a cúpula azul, o grande olho-de-luz.  Em torno do templo, os seres recém-criados do seu mundo, com seus duplos refletidos na água, surpreendem o espectador pelo inusitado das sugestões fantásticas de entrelaçamento erótico. Os pássaros-serpente que nos vigiam, ao longo da cidadela, revelam a natureza do simbólico, a matéria primordial de que somos feitos, da nossa frágil humanidade, trêmula na tensão entre o desejo e as contingências. Se o pássaro em nós quer voar, a serpente tem que se arrastar. É o modo simbólico, a febre do estético”. 

Francisco Brennand reconstruiu a olaria que alimentou sua família, cujo barro moldou sua história.Para o futuro, Brennand (91 anos) nos deixa a Oficina rodeada de Mata Atlântica às margens do rio Capibaribe. Um tesouro histórico e artístico inestimável!

Às margens de rio que foi determinante para economia de Pernambuco, pois foi na sua várzea que se formaram os primeiros engenhos de cana-de-açúcar, em virtude de seu solo de massapê, próprio para o cultivo.

A região da Várzea está impregnada de memória de um Brasil colonial, cujos engenhos tiveram parte importante no desenvolvimento econômico da época. O Engenho Santos Cosme e Damião    ( o link mostra um pouco do que foi a região da várzea pernambucana) está dentro desta história e deu lugar séculos depois às cerâmicas, fábrica de azulejos, fábrica de porcelana, fábrica de vidros, siderúrgica e outras unidades do Grupo Brennand.

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand reconstruiu em 1971 a cerâmica fundada por seu pai em 1917  que se encontrava em ruínas.

Voo livre

A sensação, ao entrar na Oficina, é que você poderá empreender um voo livre no mundo dos sonhos. Independente do que o artista quis conceituar em seu trabalho, o complexo da Oficina Brennand oferece momentos inesquecíveis para quem ama a arte.

Com certeza não vamos interromper este sonho, vamos, sim, viajar nele!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo.

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