Sincretismo religioso que só existe no Brasil

São Jorge não é mais o mesmo.
2 de julho de 2018
Quem ganha com o sal e o vento de Galinhos
18 de julho de 2018

Sincretismo religioso que só existe no Brasil

A cidade  de Salvador, na Bahia, encanta pela riqueza cultural afro-brasileira.  A sedução é inevitável. Muito mais se o turista assistir a Missa da Benção, na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, exemplo de sincretismo religioso. Candomblé e catolicismo.

É uma missa que somente no Brasil é capaz de ser celebrada porque tem nas entrelinhas de seus ritos a história da escravidão.

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (1704/1796), Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia. Foto via internet

Vamos deixar de lado a celebração religiosa e lançar um olhar mais antropológico ou sociológico. A missa representa o Brasil e a sua história. O negro escravo catequizado pelo homem branco. Disso resultou um mistura das crenças que foram passadas de pai para filho e uma devoção muito grande e fé para suportar o sofrimento da escravidão.

Sincretismo

O que fazer se o senhor dos escravos acreditava em santos e o negro tinha a força dos Orixás escondido em seu coração. Era aceitar que Deus era o mesmo para todos e os elementos de cada religião poderiam ser reinterpretados sem alterar a fé. Uma grande lição de humildade e sabedoria.

Santa Bárbara(justiça) é Iansã (senhora dos ventos),  Nossa Senhora da Conceição é Iemanjá (rainha dos mares), São Jorge é Ogum (guerreiro), Jesus é Oxalá e assim vai…

Emocionante é a demonstração de que é possível conviver com a diversidade de crenças. Nela o candomblé e o catolicismo se unem em uma única linguagem espiritual.

Irmandade dos Pretos

A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi começada em 1704 e construída lentamente por descendentes de escravos e ex-escravos que trabalhavam voluntariamente nas horas livres. No século XVII, os negros se organizaram em uma associação e dela surgia a Irmandade do Rosário dos Pretos de Salvador.

“A Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora às Portas do Carmo, ereta canonicamente na Capital do Estado da Bahia, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Praça José de Alencar, s/nº, Pelourinho, fundada no ano de 1685 e elevada à categoria de Ordem Terceira em 02 de julho de 1899, é uma associação religiosa, sem fins lucrativos, de pessoas católicas de ambos os sexos, de cor negra, de conduta ilibada e que praticam como bons cristãos os mandamentos de Deus e da Igreja.

Ao longo do tempo esta Irmandade acabou por adquirir um cunho cultural, já que sempre foi um espaço de fortalecimento de identidade e preservação da cultura afro – brasileira”. Fonte Irmandade do Rosário.

Acervo histórico

Azulejos vieram de Portugal e que destacam a devoção ao Rosário. Os altares são em estilo neoclássico realizados em 1870 pelo entalhador João Simões F. de Souza. Entre as imagens coloniais destaca-se a de Nossa Senhora do Rosário, do século XVII, venerada na antiga Sé da Bahia, além das imagens de Santo Antonio de Categeró, São Benedito, Santa Bárbara e Cristo em marfim.

Nos fundos da igreja existe um antigo cemitério de escravos e para preservar a sua história, a liturgia dos cultos faz uso de música inspirada nos terreiros de Candomblé. Nas datas comemorativas de Santa Bárbara (catolicismo), Iansã (Candomblé), a igreja tem uma agenda de festas.

Missa da Benção

As imagens captadas nesse vídeo foram de uma Missa da Benção realizada em janeiro de 2013. A música contagia quase em toda a celebração. Durante o ofertório em que as mães de santo levam cestas de pão para a benção, a alegria e a música são mais intensas. Vale a pena ver!

Local: Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Horário(s): Terça às 18h, e aos domingos, às 10h

Comentários Facebook

comentarios

Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.