Por que eu acredito neste país

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Por que eu acredito neste país

Foto Reuters

Acho que muitas pessoas do Brasil estão por fora do que está acontecendo na Espanha. Vou tentar explicar de uma forma resumida os acontecimentos das últimas semanas e porque agora, neste exato momento, estou orgulhosa de ter escolhido este país para viver.

Na última semana, o governo que estava no poder foi condenado pela justiça por um caso de corrupção que incluía quase todos os participantes do governo. A oposição apresentou uma “moção de censura” apoiada pela maioria no parlamento, fazendo que o então presidente Mariano Rajoy fosse deposto. Isso levou a um acordo entre partidos que colocou a Pedro Sanchez como novo presidente.

Basicamente, sexta feira dormi com Mariano presidente e sábado acordei com Pedro. No mesmo sábado, o rei chamou a Pedro, como ato protocolar, para convidá-lo a formar governo. Até ai, todos os movimentos não passaram de politicagem. Válidos e reconhecidos, mas de certa forma, dentro de um marco político esperado.

O que mudou? O governo formado pelo novo presidente.

Quem se lembra quando escrevi um texto sobre a greve do dia 8 de março aqui na Espanha.‘Não gosto do nome feminismo, mas faço greve hoje’. Uma greve, que com o movimento feminista como bandeira, levava a todas as mulheres do país a uma greve geral.

Escutei críticas de todos os lados sobre essa greve. E mesmo eu, reconhecendo que não sou fã do termo feminista, parei e fiz greve. Porque como disse anteriormente, também sou vitima de uma educação machista, que me faz crer que o feminismo é o antônimo de machismo.

E nesse momento escrevi o que eu sentia… mas mesmo assim não significa que não lute pela igualdade de sexos, e que não esteja de acordo com a essência desse movimento. Digamos que hoje já estou até mudando de opinião.

Bom, voltando ao que interessa. Estamos diante de uma nova Espanha, que diante do visto e ocorrido no dia 8 de março, começamos sim uma mudança de paradigma. São 17 ministros que encabeçam o governo de Pedro Sanchez: desse total, 11 são mulheres – 5 são homens, 2 deles homossexuais abertos; Fernando Grande Marlaska e Maxim Huerta, ministro do Interior e da Cultura e Esporte, respectivamente.

Trajetória profissional

Todos eles foram escolhidos devido a sua trajetória profissional, alguns longe da política e outros, mais pertos, mas também muito competentes. Temos um ministro da ciência que é astronauta e engenheiro aeronáutico. Nada melhor que uma pessoa que vem do setor para impulsar de novo a investigação, quesito pelo qual Espanha sempre apostou.

Temos uma ministra da saúde médica que aposta em cheio pela saúde pública universal, que para quem não sabe, Espanha é o país exemplo na Europa em saúde pública.

Uma ministra da economia europeísta e uma das pessoas mais influentes do país na instituição. Economista e advogada, sabe exatamente do que carece o país e tem um grande desafio pela frente.

Um ministro da cultura escritor, uma ministra da educação com três décadas de experiência em políticas educativas. Sim, com um governo que se mostra difícil não crer que esse país tem saída. Quem não acredita no Estado do bem estar deveria vir aqui e ver como são as coisas.

Um Estado do bem estar bem gestionado é possível sim em qualquer país que tem boa vontade e bons governantes. Nem os grandes políticos da oposição se atreveram a criticar os ministros de Sanchez, porque sabem que foram bem eleitos.

Mudança de paradigma

Obviamente estaremos esperando os próximos capítulos da história, porque não basta estar cercado por gente competente, mas sim que lhes deixem atuar. Mas assim mesmo, estou muito orgulhosa das mudanças que vamos vendo: uma mudança de paradigma que por fim começa a dar voz às minorias e começa a acercar os discursos de igualdade: de gênero, de idade, de preferencias sexuais.

Outra mudança importante que aconteceu essa semana. A nova diretora do jornal El País é a jornalista e comentarista, Soledad Gallego Diaz, primeira mulher a alcançar a presidência do jornal, liderado 42 anos pelo sexo masculino. Cita a Soledad não por ser apenas mulher, mas sim por pertencer duplamente às minorias: além de mulher, tem uma idade avançada; 67 anos – idade de se aposentar na Espanha.

O que faz disso ser um marco?

Porque a tendência é despreciar as pessoas mais velhas. Pensamos que já não sabem muito e que não são capazes de se adaptar as mudanças que a sociedade oferece. O fato de uma mulher de 67 anos ser a presidente do jornal de maior calado do país diz muito sobre como temos que encarar a velhice.

Sei que muita gente pode rir de mim porque tenho só 32 anos. E que ficar velho não é fácil, principalmente para aqueles que sempre amaram a juventude. Mas o fato é que Espanha conta com a população mais envelhecida da Europa, e com pessoas que tentam continuar ativas mesmo com o peso da idade e as dores que levam.

Velhice

Todos vamos ficar velhos. Homens ou mulheres, faremos parte desta minoria. E sofreremos os preconceitos dela. De uma minoria que cada dia mais é maioria em todo o mundo e principalmente aqui. Por que não brindar a eles este reconhecimento: velho sim, inútil não. E perdoem-me por utilizar a palavra velho, mas não vejo forma mais gráfica que dizer certas verdades.

Hoje conhecemos tanta gente com idades avançadas que fazem tantas coisas, que não perdem o ritmo apesar da saúde, das dificuldades e dos demais. Por que pensar que eles já não são capazes de fazer nada. Por que ser tao cruéis a pensar que já não podem fazer… pois claro que sim. Temos Soledad e 1001 pessoas a mais para provarem que a idade não é sinônimo de ineficiência, de improdutividade.

Não digo que os idosos devam sair as ruas buscando trabalho quando vocês não querem. Vocês tem mais que direito a vossa aposentadoria. Mas se vocês quiserem fazer outra coisa, não deixem que o mundo diga não. Sejamos todos conscientes que esse dia chegará para todos, ou pelo menos para grande maioria, e por que não, começar a tomar consciência que ficar velho é apenas mais uma etapa da vida, com direito a ser gozada como todas as outras.

Eu acredito na Espanha, porque mudanças estão vindo e muitas mais virão. E estas que eu apresento hoje, são as que eu acredito e abraço na esperança da construção de um mundo melhor.

 

 

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Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela. Jornalista por vocação, já viveu em muitos países (Brasil, Portugal, Inglaterra, Espanha), em busca de desafios. Atualmente trabalha no departamento de Marketing da Tyco Integrated Fire & Security (parte do grupo Johnson Controls) como Campaign & Sales Enablement Manager Continental Europe, apesar de que escrever é a sua verdadeira paixão. E o mundo do vinho também. Além disso, dedica-se a promover formas mais sustentáveis de vida, como o uso da bicicleta em Madri, colaborando com o blog "Muévete en Bici por Madrid". Colabora com alguns blogs e escreve contos em inglês, português e espanhol.

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