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Que a vida não termine inutilmente

Depois de tanto tempo sem ter tempo… para ler, para desfrutar de um dia só pra mim, tive a oportunidade esses dias de ter o gostinho de novo de como era viver assim. Há um ano estou fazendo uma pós graduação que me tiraram todos meus fins de semana.

Já não sabia mais o que era levantar e ficar horas na cama até o meio dia, lendo e gozando da solidão da minha casa, da minha cama e de tudo que me rodeia.

De tão ocupada acabei esquecendo de quem eu era. De tão ocupada já não tinha tempo para acordar devagarzinho, colocar meu roupão, fazer meu café e ler, ler e ler a manhã toda. Um fim de semana desses, depois de quase nove meses sem fazer isso, sem desfrutar de mim mesma, tive o gostinho de poder saber como era fazer isso de novo. E nada melhor do que voltar a ler com a melhor companhia. Voltar a gozar dessa manhã com um livro da Martha Medeiros.

Felicidade Crônica

Comecei a ler “Felicidade Crônica”, um dos últimos títulos que trouxe do Brasil. Não li nem 50 páginas e já dá vontade de recomendar a todo mundo que leia. Depois de ter lido essas páginas, à noite, fui pra cama com a sábia frase “devemos nos empenhar em não deixar o dia partir inutilmente”. Trás uma linda crônica sobre os pequenos prazeres da vida. Fui dormir pensando no muito que podia agradecer do meu dia.

 “Eu tenho, há anos, isso como lema.  É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está dando o prefixo e saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa. Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo. Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava escuro dentro da gente.

 Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida.

 Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e uísque, mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado.

 Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes”.

Foram lendo essas palavras que pensei: nas últimas semanas os meus dias também foram salvos por detalhes. Que ainda que estivesse tudo mal, todos os dias eu pensava que disso ainda ia aprender. E que mesmo que não tenha despertado feliz, o sol seguia brilhando lá fora ou a chuva continuava caindo (para minha alegria e o desespero dos madrilenhos).

Passei dias conturbados, mas todos os dias que passaram foram salvos por algum pequeno detalhe que no fim pensei: nossa que bom. O balance continua sendo negativo, porque nas matemáticas da vida, há dias que não tem como ganhar. Perdas haverão. Mas o negócio é saber como reverter a situação. O negócio é não deixar a peteca cair e seguir adiante porque uma hora as coisas começam a se encaminhar de novo.

Até na tristeza se pode tirar lições.

Não hoje, claro, que tudo parece negro e que o mundo vai acabar… Mas no amanhã, quando a gente se lembra até com certa ternura que bonitinho era quando você estava apaixonada e ficava suspirando pelos cantos… Ou quando você lembra daquela briga tonta com o seu irmão que nunca teve razão de ser, mas que naquela hora você se sentia a mais injustiçada do mundo.

As recordações se tornaram mais amenas?! Você já vê até com certa saudade esse tempo?! Pronto: você acaba de aprender a fazer matemágicas. Tornar o insuportável, a tua dor num sentimento terno e ingênuo.

Pois é. Ontem estava tudo negro! Mas terminou cinza – porque a Martha colocou a sua pitadinha de branco e beleza no meu dia. E eu me deixei levar.

É tão bom quando isso acontece. Quando você mesmo se dá conta do infantil e mimado que pode ser um capricho e se dá conta do bonito da vida. No meio de tanta atividade, esqueci por um momento que o mundo estava ali fora, esperando por mim, para que eu brincasse com ele. E que meu prazer de escrever sobre a vida não desvanecesse na correria do dia a dia, priorizando os outros mais que a mim mesma.

Oi mundo! Estou de volta com vontade de fazer que esse dia e todo os outros que virão não terminem inutilmente.

 

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Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela. Jornalista por vocação, já viveu em muitos países (Brasil, Portugal, Inglaterra, Espanha), em busca de desafios. Atualmente trabalha no departamento de Marketing da Tyco Integrated Fire & Security (parte do grupo Johnson Controls) como Campaign & Sales Enablement Manager Continental Europe, apesar de que escrever é a sua verdadeira paixão. E o mundo do vinho também. Além disso, dedica-se a promover formas mais sustentáveis de vida, como o uso da bicicleta em Madri, colaborando com o blog "Muévete en Bici por Madrid". Colabora com alguns blogs e escreve contos em inglês, português e espanhol.

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