Crítica de arte começou no período do Iluminismo

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Crítica de arte começou no período do Iluminismo

Filósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812 Fonte: História Viva

O espírito crítico em relação a arte começou quando o mundo ocidental se posicionou contra a intolerância religiosa, a injustiça e os privilégios. Os formadores de opinião tiveram sua fase embrionária durante Iluminismo ou Época das Luzes, de acordo com os estudos da professora italiana Orietta Rossi Pinelli.

“O Iluminismo foi o momento em que a arte e ciência formaram uma `República na Europa”, define. Ela é autora do livro “Le arti nel settecento europeo”, entre outros.

Conheci Orietta Pinelli quando estive na Sapienza Università di Roma, em 2010. Esse seria seu último ano de docência antes de se aposentar. Foi um privilégio, confesso, participar de suas aulas de crítica de arte como aluna ouvinte.

Iluminismo

A pesquisadora italiana, em seu livro, aborda a arte no período de 1700 a 1799 (Il settecento – uma das maneiras como os italianos definem séculos, ex: novecento). Apresenta dados históricos e exemplos que mostram o  período em que os artistas começaram a expressar em suas obras o que sentiam em relação ao mundo e à história.

Quando, até então, acontecia ao contrário. As poéticas artísticas eram bem acabadas imitando o real para mobilizarem pela emoção as pessoas. Na verdade, na Idade Média, a arte era alvo dos poderes instituídos que usavam o artista para os seus interesses.

Giulio Argan

Orietta, que foi aluna de Giulio Carlo Argan e desde 1981 integrou o Departamento de História da Arte da Sapienza, Universidade de Roma , atribuiu que o início da libertação artística, o rompimento da arte com a proposta apenas figurativa e emocional, foi a partir de 1700 e mostra pequenos detalhes que passam despercebidos do espectador comum.

As novas idéias da época, que abriram caminho para a Revolução Francesa, denunciaram erros e vícios de uma sociedade controlada pela igreja e pela aristocracia na Europa. A maioria das obras de arte antes de 1.700, usava ou figuras mitológicas para manipular o povo, as histórias bíblicas que ressaltavam um Deus onipotente e onipresente, ou retratava famílias nobres e poderosas, em imagens perfeitas em vestuários, paisagens e ambientes preparados.

Destaque à intelectualidade

Rosalba_Carriera_Self-portrait

O livro, sem tradução em português, apresenta  o que as aconteceu durante as décadas “del settecento” na arte, período em que os artistas começaram expressar uma transformação de pensamento. Algumas obras, como o autorretrato da pintora italiana Rosalba Carriera, em sua maturidade – 40 anos – apresenta como ela era na realidade, cabelos brancos, rugas e vestimentas sem pompa.

Para a época, isto era incomum. Mas o mote estava na diferença em que se pintava a parte frontal da cabeça, com mais claridade. A luz na mente. O destaque à intelectualidade. A obra está na Academia de Veneza.

Madame Pompadour e Napoleão

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Depois das pinceladas sutis destacando a importância da inteligência, outras personalidades na história, como Madame Pompadour, amante do rei da França, que tinha um olhar mais sensível para o mundo, contribuiu para a liberdade de pensamento na arte.

Napoleão, querendo ou não, incentivou as artes plásticas pela necessidade que tinha de mostrar poder ao transportar obras de artes dos lugares conquistados. São referências históricas que contribuíram para o fortalecimento das instituições organizadas em artes e a liberdade de pensamento e, sem dúvida, foram fundamentais na formação de opinião, sobretudo crítica.

Orieta Rossi Pinelli

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Orietta Rossi Pinelli é pesquisadora e foi professora de História da Crítica de Arte, na Sapienza, Universidade de Roma até 2009(hoje aposentada). Durante o período de docência abordou questões científicas e educacionais, com ênfase à cultura visual do século XVIII e XIX nas histórias da crítica de arte,arquitetura, da arte no sentido mais tradicional,da restauração, do património artístico como propriedade pública.

Em seus estudos teve a preocupação em aprofundar sobre os momentos de transformação e de transição de um estado para outro da cultura, em um esforço para trazer para fora todos os cruzamentos críticos que ajudaram a definir os modelos que muitas vezes estão enraizadas na percepção dos protagonistas de um certo período histórico, de modo a proporcionar segurança.

Assim, em sua pesquisa, como foi em suas aulas, colocou a história das artes visuais entrelaçadas com a história das instituições, da literatura, música, ciência, filosofia, economia, tentando compreender as razões que contribuíram (pelo menos em parte, e pelo menos os dados que temos não permitem) para definir as opções culturais que estão enraizadas em um determinado grupo social, em um certo tempo, em um determinado lugar.

Origem do Iluminismo

Ainda que importantes autores contemporâneos venham ressaltando as origens do Iluminismo no século XVII tardio, não há consenso abrangente quanto à data do início da era do Iluminismo. Boa parte dos acadêmicos simplesmente utilizam o início do século XVIII como marco de referência, aproveitando a já consolidada denominação Século das Luzes . O término do período é, por sua vez, habitualmente assinalado em coincidência com o início das Guerras Napoleônicas (1804-15).

Iluminismo é um conceito que sintetiza diversas tradições filosóficas, sociais, políticas,correntes intelectuais e atitudes religiosas. Pode-se falar mesmo em diversos micro-iluminismos, diferenciando especificidades temporais, regionais e de matiz religioso, como nos casos de Iluminismo tardio, Iluminismo escocês e Iluminismo católico.

O Iluminismo é, para sintetizar, uma atitude geral de pensamento e de ação. Os iluministas admitiam que os seres humanos estão em condição de tornar este mundo um mundo melhor – mediante introspecção, livre exercício das capacidades humanas e do engajamento político-social. Immanuel Kant, um dos mais conhecidos expoentes do pensamento iluminista, num texto escrito precisamente como resposta à questão O que é o Iluminismo?, descreveu de maneira lapidar a mencionada atitude:

O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do Iluminismo”. Fonte: Wikipedia.

 

 

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo.

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