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Publicidade da máquina de escrever Olivetti Valentine 1969

Difícil explicar porque pensei em escrever esse artigo. Mas o fim do ano está chegando e é inevitável não começar a fazer um balanço anual. Tenho muitas coisas para analisar, sem dúvida, e uma delas é a minha relação com a escrita esse ano.

Acho que esse foi o ano que mais escrevi de todos. Não consigo pensar na época da escola, ou da faculdade que também escrevia bastante. Mas no meio de tanta atividade, sei que usei muito tempo meu para me dedicar a duas atividades que eu amo: a leitura e a escrita. Como a leitura devo fazer um análise mais profunda em outro post, neste de hoje, quero deixar claro o bem que foi escrever durante este ano e poder compartilhar um pedacinho meu com vocês.

Já dizia a minha amiga Franzie que 2017 ia ser o ano das surpresas. E como. Acho que nunca pensei que realmente seria capaz de fazer tantas coisas, que exigem tempo e concentração. Mas parece que sim. Desde que a Mari me convidou para colaborar no Pan, vi uma oportunidade única de parar e escrever. Quem conhece o Pan há tempo sabe que comecei a escrever em 2014 quando reencontrei a Mari em Roma.

Naquela época tentei ser mais regular com a escrita e infelizmente não foi possível. Esse ano foi curioso. Desde que fui a morar sozinha e dispus de mais tempo para organizar aquilo que eu gosto de fazer, a escrita apareceu sozinha. Muitos dias eu queria ficar em casa ou lendo ou escrevendo. E pouco a pouco, a regularidade e a disciplina tomaram conta de mim. Cada livro que terminava, me dava ideia para escrever algo mais. Cada conversa que tinha, me proporcionava pensamentos que queria plasma-los numa folha de papel. E assim, sem querer, pouco a pouco, fui sentando diante do computador, da minha máquina de escrever, e as ideias iam saindo.

E de repente, não mais que de repente, me dou conta que estou vivendo um deja-vu. De repente me sinto identificada com aquele texto tão lindo da Natalia Ginzburg chamado “meu ofício”. E eis que escrever é o meu ofício. Dar vida as palavras e poder encantar pensamentos com frases. Não que escrever valha algo para os outros…

“Meu oficio é escrever; e o conheço bem e já faz muito tempo. Confio que não se me interpretará mal: não sei nada sobre o valor do que eu posso escrever. Sei que escrever é o meu oficio” (Natalia Ginzburg – Meu oficio).

Para mim vale muito. E tenho que agradecer a internet por existir e permitir que eu dê voz aos meus pensamentos. Eis que escrever é a minha terapia. Mais que a leitura, mais que a biblioterapia. Encontro conforto na escrita, e soluções para muitos problemas. Escrevendo sou mais feliz. Simplesmente porque desfruto do que eu faço.

Meu ofício é a escrita, mesmo que ela não seja útil ou me dê comer. É nesses momentos do dia, em que eu escrevo, que noto, uma vez mais, que o dia vale a pena, que a vida vale a pena. E agora, enquanto os meus dedos deslizam sobre o teclado, sei que sou mais feliz que nunca, porque aqui, estou em uma constante, realizando uma atividade que me proporciona prazer.

Escrever me permite ser mais feliz, me permite ser mais equilibrada, me permite ver e rever as minhas perspectivas, analisar meus erros e buscar soluções, se há. Não busco transcender em palavras, apenas me sentir bem comigo mesma. E eis que quando escrevo a televisão do mundo se apaga e é apenas eu, meus pensamentos e as palavras.

Hoje em dia, não saberia fazer outra coisa sem a escrita. Porque noto o bem que me faz, porque noto que a Jaqueline que escreveu no começo de 2017 e a de hoje já não são a mesma. Porque noto a mudança nas atitudes e nas palavras, nas formas, nas estruturas. Eis que a escrita me permite ver a minha evolução, como pessoa, no meio de um mundo que muda todos os dias.

A escrita me trouxe conforto nos dias ruins, naqueles que pareciam que o mundo ia acabar. E me permitiu usar a imaginação e escrever um desfecho diferente, mais bonito e florido, como nos contavam quando éramos crianças.

“O meu ofício é escrever histórias, coisas inventadas ou coisas que recordo de minha vida, mas sempre histórias, coisas que não têm a ver com cultura, mas somente com a memória e a fantasia. Este é o meu ofício e o farei até a morte”. – (Natalia Ginzburg – Meu oficio)

Hoje lembro, que já quando aprendi a escrever, a juntar palavras, queria ter um diário. E escrever sempre nele. Pensava nas pessoas que contavam a sua vida, o seu dia naqueles livros intermináveis. Perdi as contas de quantas vezes comecei um diário e desistia lá pelos meios de abril. Lembro do meu primeiro diário e quantos erros gramaticais tinham, um hoje sem H, não sabia onde ia a CH, o X, o S ou os SS ou mesmo a Ç. Quanta graça pode ter o pensamento de uma criança; que bonito ela poder ver a vida.  Eis que aqui, sem saber, o meu oficio começava.

“E, se nós mesmos tivermos uma vocação, se não a traímos, se continuarmos a amá-la no decurso dos anos, a servi-la com paixão, podemos manter longe do coração, no amor que sentimos por nossos filhos, o sentimento de posse. Porém, se não tivermos uma vocação, ou se a tivermos abandonado e traído por cinismo, ou medo de viver […] então nos agarramos aos nossos filhos como um náufrago ao tronco de árvore, pretendemos vigorosamente que nos devolvam tudo o que lhes demos, que sejam absoluta e implacavelmente tais nós os queremos, que obtenham da vida tudo o que nos faltou”. – (Natalia Ginzburg – Meu oficio)

E tive muitos momentos de crises de identidade e de aprender a escrever. Ouvi muita gente dizer que não escrevia bem, que não ia aprender nunca. Ouvi gente que dizia que progredia, mas que não acreditavam que queria escrever.

Escrever em outra língua também foi o grande desafio. Tive uma professora de língua espanhola, que na sua maior sinceridade me disse que eu nunca ia escrever bem. E eis que de certa forma consegui. Talvez não no nível que ela quisesse, mas certamente aquela crítica me motivou a ir à biblioteca e passar horas estudando e desenredando os mistérios da gramática espanhola.

Não queria realmente provar nada a ninguém, nem provei nada e ela porque nunca mais a vi. Nem a ela nem a muitos professores que cruzaram meu caminho. Tenho até carinho por eles terem sido tão sinceros comigo. Muitas pessoas desistem no meio do caminho… minha persistência veio daquela paixão que eu sabia que eu tinha. E de certa forma, para chegar até ali, tive que enfrentar as minhas limitações. Meus diários são reflexo do meu progresso, na escrita e como pessoa, na evolução de quem fui e hoje quem sou, no amadurecimento da mulher que aqui se apresenta: com inseguranças e desejos como todos… mas de peito aberto para enfrentar.

Hoje sei que a escrita, sem dúvida é o meu oficio; a minha praia, o que eu mais gosto de fazer. Aquilo que me proporciona conforto nas horas difíceis e mais alegria no decorrer do meu dia. E tenho a certeza de que seguirei escrevendo, assim como Natalia, até o dia da minha morte. Se ninguém quiser ler, paciência… já estarei contente em escrever para mim mesma.

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Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela. Jornalista por vocação, já viveu em muitos países (Brasil, Portugal, Inglaterra, Espanha), em busca de desafios. Atualmente trabalha no departamento de Marketing da Tyco Integrated Fire & Security (parte do grupo Johnson Controls) como Campaign & Sales Enablement Manager Continental Europe, apesar de que escrever é a sua verdadeira paixão. E o mundo do vinho também. Além disso, dedica-se a promover formas mais sustentáveis de vida, como o uso da bicicleta em Madri, colaborando com o blog "Muévete en Bici por Madrid". Colabora com alguns blogs e escreve contos em inglês, português e espanhol.

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