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Uma ponte imaginária de amor

 

Naquele dia que você deu sua última respiração, eu queira ter falado o mesmo que Gilgamesh, um dos reis sumérios, falou quando seu amigo morreu. Gilgamesh, sofrendo profundamente pelo luto desse amigo, disse para ele:

“Você vai se deitar numa cama confortável! Eu vou te cuidar numa cama majestosa. Você vai se sentar a minha esquerda e todos os reis do mundo beijarão seus pés. O Povo de Uruk vai sofrer por você também. Eu vou providenciar isso! Mesmo as pessoas felizes vão fazer luto ao seu lado. E  depois de você eu vou sofrer e  apodrecer…”

Gilgamesh

Depois, como Gilgamesh fez também, eu poderia ter colocado a pele de um leão no meu ombro e ter ido até o deserto. Lá, numa tempestade de areia, pudesse talvez esquecer esse meu sofrimento, que é mais profundo que o oceano. Você é tudo para mim… Se eu encontrasse uma pessoa feliz, poderia ficar inimigo dela, ou eu contaria para ela sobre você, com toda a paciência, e até mesmo ela gritaria e choraria com sofrimento…

Queira viver no inferno cruel, no qual Hasan Sabbah  mandou matarem seu próprio filho, ou no paraíso falso que ele também criava.  Da fortaleza majestosa Alamut, onde nenhum ser vivo chega além das águias, desejaria olhar para o vale Rudbar até o horizonte. Lá queria sacrificar minha vida sem pensar, um ato contra os tiranos, que aumentam seu poder em cima das guerras que travam. Antes de chegar minha morte, queria poder imaginar seu rosto triste…

Como o herói do livro “O Jogador” de Dostoievski, queria apostar meu último dinheiro sabendo, com toda a certeza, que ganharia muito. Depois de ganhá-lo, o doaria para o meu amor que precisava dele, meu amor que não me ama… Depois de feito isso eu iria para fora do quarto, sem falar nada, e nem olharia para trás…

Desejaria ser patético, revolucionário e surdo como Beethoven que não conseguia escrever a décima sinfonia. Queria escutar as notas da música não com minhas orelhas, mas sim com o meu coração. Queria construir com as notas da canção uma ponte imaginária para o meu coração chegar até o seu…

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Erol Anar
Erol Anar
Erol Anar nasceu em Havza na Turquia, estudou em cursos de Antropologia (durante dois anos), História da Arte (durante dois anos) e pintura (durante um ano) nas universidades de Istambul, Ancara e Samsun. Foi membro da Associação dos Escritores Turcos, trabalhou no Centro de Arte Contemporânea de Ancara onde foi orientador de leitura da obra de Dostoiévski e da literatura universal durante 10 anos. Ganhou prêmios. Escreveu em diversos jornais, vários artigos foram sobre arte, direitos humanos, literatura e a vida cotidiana. Ainda teve entrevistas veiculadas em jornais de diversos países e tem 15 livros publicados no idioma turco.2 Deles foram traduzidos para português.

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