Internet deixa livre artista plástico para divulgar sua obra

Como a internet era vista há 10 anos nas artes plásticas paranaense

O tema web foi explorado sob o título “www.parana.e-meio.art.br” como uma das primeiras pesquisas realizadas sobre a Internet como ferramenta de divulgação utilizada pelos artistas plásticos paranaenses.

O estudo foi apresentado num curso de especialização na Escola de Música e Belas Artes no Paraná (Embap), em Curitiba, no ano de 2007. Por intermédio da pesquisa, a jornalista Mari Weigert constatou que, na época, apenas 10% dos artistas plásticos paranaenses, de 200 nomes pesquisados usavam os recursos tecnológicos da Internet.

Numa nova atualização, seis anos após as considerações finais observou que as mudanças foram radicais.

Redes sociais

Perfis alvos da pesquisa, como Leila Pugnaloni,Tom Lisboa, Claudia Lara, Katia Velo, José Antonio de Lima, Rogério Dias, entre outros, que usavam apenas e-mails e portfólios virtuais. Agora são presentes e interagem com suas obras e exposições no Facebook , Google+ e Instagram.

As comunidades de cada artista (alguns não deixam à vista o número de participantes) variam de 500 até mais de 2000 pessoas em contato mútuo.

Com este público diário o resultado é imediato. A artista plástica Leila Pugnaloni todos os dias atualiza seu perfil e coloca suas criações on-line. Leila aprova a tecnologia e a utiliza sempre.

“Já vendi desenhos colocando-os na minha rede social para todo mundo ver. Certa vez, um internauta que não fazia parte da minha comunidade, gostou, e adquiriu a obra. Acertamos tudo online e a enviei pelo correio”, revela.

Leila acorda e vai para seu atelier criar, delinear traços no papel, depois de feito o desenho, o escaneá e copia para o computador.

Poder Tradicional

Na verdade, o questionamento principal do www.parana.e-mail.art.br foi saber se a Internet poderá eliminar o poder dos tradicionais salões, museus e salas de cultura na projeção de novos artistas nos próximos anos. Uma pergunta que ficou sem resposta imediata e que exige atualização constante, além da possibilidade de ser respondida daqui há 50 anos.

A pesquisa inicia comparando o comportamento do pintor Brunon Bronislaw Lechowsk (1887-1841), nascido em Varsóvia, Polônia, com a condição vivida pelos artistas atuais. Diz a introdução:

“Se o pintor Brunon Bronislaw Lechowsk (1887-1941), nascido em Varsóvia, Polônia, que viveu alguns anos no Paraná, tivesse conhecido a tecnologia virtual teria outra visão em relação aos seus ideais e provavelmente estaria navegando por diversos lugares do mundo com o @.com.

Lechowski era um visionário de sua época e quis mostrar ao mundo que era possível se libertar de um processo social engessado em princípios definidos pelas instituições. Viajou pelo mundo e permaneceu 16 anos no Brasil.

Para realizar seu objetivo de angariar fundos para criar a Casa Internacional do Artista precisou construir um equipamento expositivo para percorrer vários países e dar exemplos: uma tenda que poderia ser armada em praças, jardins e parques servindo de morada durante a viagem e com espaço para suas exposições.

A razão de citar Lechowski neste trabalho sobre o mundo online é de dimensionar as diferenças temporais no comportamento da humanidade. Hoje para o artista plástico o mouse e a tela do computador abrem as portas para um novo espaço. Um espaço em que a máquina e corpo vivem em simbiose, que faz o homem viver num outro nível de consciência, num território livre sem leis e sistemas culturais.

Tudo é valido no virtual.

A mentira, a verdade, a guerra de brincadeira (jogos) e a de fato, a violência, harmonia e a beleza. A pesquisa serviu para documentar um momento na história, demasiado passageiro, pois a World Wide Web é, de fato, um recurso tecnológico eficiente, mas cérebros inquietos e visionários não param e estão buscando novos meios de interação entre homem e a máquina”.

Considerações finais

“O www.parana.e-meio.art.br faz emergir no cenário das artes visuais o tema contemporâneo da relação homem/máquina dando ênfase ao uso da Internet no cotidiano do artista que vive no Paraná, destacando os sites, portfólios, blogs, fotologs produzidos no Estado.

Para concluir este trabalho sobre o uso da web por artistas paranaenses e a sua relação com a tecnologia é preciso retornar à introdução da pesquisa, em que se compara o meio que Lechowski encontrou para tentar alcançar o seu ideal, com os novos meios utilizados pelos artistas nos dias de hoje.

Lechowski precisou se transportar materialmente, com o seu corpo e o seu equipamento de pintura.

Os artistas de hoje não precisam mais sair do lugar para transpor fronteiras e apresentar suas obras ao mundo. Os pixels e a digitalização fazem os milagres da cores e reproduzem cópias idênticas aos originais em pouco tempo e as enviam para onde o usuário deseja.

Ideal de Lechowski

Apoiado nos benefícios da Internet, o artista plástico moderno busca o mesmo ideal de Lechowski, dentro de um outro mundo, agora, não mais com tendas construídas artesanalmente, mas com códigos, como www. HTML, @, com, org., gov., enfim, seja qual for, todos os signos possíveis que utiliza a web, para que, em poucos segundos, a interação, público/arte, se concretize.

Tempos diferentes e comportamentos diferentes.

“Somos feitos e refeitos por nossas invenções”, escreve Derrik de Kerckhov (1997), em A pele da Cultura. Ele tece considerações sobre a importância atual do computador para a cultura da mídia eletrônica. Também por ser o ponto de aproximação e intensificação das e nas relações entre todos os meios eletrônicos.

A escrita de Kerckhov remete ao pensamento do antropólogo francês Lévi-Strauss, em relação ao jogo de cartas.

Tanto Bruno Lechowski foi jogador, quanto os artistas do mundo contemporâneo são jogadores. Ele teve, e os novos têm nas mãos cartas que não inventaram, pois o jogo de cartas é um dado da história e da civilização. De qualquer forma, o tipo de jogo era e é o mesmo: a busca pela liberdade sem fronteiras na arte. No caso de Lechowski, a história nos mostra que o fator tempo e lugar interferiu nos seus objetivos. Na contemporaneidade, o tempo e o espaço são infinitos.

E a “Rede do Tamanho do Mundo” foi tecida numa dimensão além da matéria e, ao mesmo tempo, é transformada em matéria.  Equipamentos, texto, imagem, som e dados.

Uma rede que não é visível ao olho nu, embora sua força e poder de transformação sejam utilizadas e percebidas sensorialmente. Sem se dar conta, a sociedade moderna se deparou com este magnífico gigante desmaterializado ainda sem leis e critérios estabelecidos pelo homem.

Um ambiente livre e neutro nas mãos do poder de consumo do capitalismo, que usufrui comercialmente de seus benefícios, mas, não controla seus caminhos. É o feitiço virando contra o feiticeiro.

Não é a tecnologia que é ruim. É o homem que não sabe usá-la. Acostumado sempre a viver sob regras impostas e freios religiosos se perde em meio a tanta liberdade, sobretudo porque no virtual ele não é matéria, é mente, é ação, consciência ou inconsequência/inconsistência.

Neste caos da comunicação, o artista se interpõe como decodificador do momento, na leitura do que é belo no mundo.

A pesquisa realizada na primeira parte deste trabalho revela que um site voltado especificamente para divulgação de eventos como é o Curitiba Interativa recebe, em média, 3.486 acessos por dia nos dias úteis, o que significa 145 pessoas por hora, de qualquer parte do planeta. Num site que cumpre agenda é bem mais fácil de conseguir a divulgação do que num jornal impresso.

No caso de um jornal impresso, como Folha de Londrina e O Estado do Paraná, as vendas diárias giram em torno de 30 a 40 mil exemplares que circulam exatamente num só território, o Paraná, e em especial Curitiba. Seus segmentos on-line geram, no caso do Estado do Paraná, 28 mil acessos diários. Isso significa que mais de mil pessoas entram na página por hora, também, de diferentes territórios.

O Museu Oscar Niemeyer, um dos maiores da América Latina, recebe uma média de quatro mil visitantes por dia, para visita de diversos tipos de mostra. Contudo, é um espaço cultural de destaque na capital e tem critérios para sua seleção, inclusive, políticos. É importante chamar atenção para o detalhe de que estes locais estão inseridos num espaço territorial e abrange um público específico.

Se de fato considerarem estes dados somente para divulgação das exposições em jornais e sites especializados é possível conferir que dentro do universo físico a questão não está relacionada só com os números. O local por mais que tenha um número grande de visitantes não pode ser comparado ao internauta, por que perde “em anos luz”, pela velocidade. O usuário da Internet interage e pode estar vivendo do outro lado do mundo e acessar o site em Curitiba, falar com a pessoa e no momento ou em questão de dias receber sua resposta.

A pesquisa constatou que no ambiente Paraná, a Internet ainda não foi totalmente descoberta no seu segmento arte e aproveitada em todo o seu potencial. Cerca de 200 nomes pesquisados pela autora, pouco mais de 10% tem portfólio virtual. O portfólio virtual de Douglas Mayer registrava, desde ano 2000, exatos 22.482, quando a autora do trabalho clicou o site, o que significa 11 acessos por dia desde que foi criado. Se o leitor for clicar de novo este número com certeza será maior. Eis a grande mágica e a dinâmica que fascinou os que inventaram a rede.

Nada é estático neste universo diferente do mundo físico. As vantagens da ferramenta on-line como meio de divulgação e comercialização da obra de arte já se tornam evidentes somente com estes parcos dados numéricos, considerando que o portfólio é exposto ao mundo e pode permanecer por toda a vida do artista, num tempo ilimitado. O ambiente on-line proporciona acesso a um público de diferentes nacionalidades e não fica somente restrito à população do local, onde se realiza o evento ou vive o artista. Pela Internet o artista pode divulgar abertamente suas ideias e promover seus trabalhos, interagindo com o público de qualquer idade, nacionalidade, do leigo ao conhecedor de arte.

Ao final, já é possível vislumbrar que a “Rede do Tamanho do Mundo” poderá ser, sim, um meio de democratização da arte, poderá, porém com a ressalva de que a tecnologia exige uma sociedade mais evoluída culturalmente, ambientalmente e socialmente. Ainda com uma outra ressalva, a web tem menos de 50 anos, jovem demais para se cometer a imprudência de fazer conclusões antecipadas ou expor um preconceito definitivo sobre o assunto. Essa atitude será repetir, numa outra escala de valores, o que Charles Baudelaire comentou, em pleno século XIX, sobre a fotografia: ‘Mas se lhe for permitido invadir o domínio do impalpável e do imaginário, tudo o que só é válido porque o homem lhe acrescenta a alma, que desgraça para nós!’

A fotografia provocou alguma desgraça nas artes visuais?

A possível dedução é que a Internet está dentro do que se chama Física Quântica, em que nenhuma das propriedades de qualquer parte dessa rede é fundamental; todas decorrem das propriedades de outras partes, e a consistência global de suas inter-relações determina a estrutura da rede toda. Talvez no século XXII nossos descendentes saberão responder se homem soube usar como deveria e se foi válida para nós simples mortais”.

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