Veneza tece. O fio da meada é a liberdade. Série Bienal

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Veneza tece. O fio da meada é a liberdade. Série Bienal

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Enquanto alguns grupos radicais no Brasil querem sufocar a criatividade, fechar museus, Veneza, a Serenissima, na Itália, o berço das artes, exalta o artista pela sua expressão máxima de liberdade.

O fio da meada é o humanismo, pelo qual o ato artístico é ao mesmo tempo um ato de resistência, de liberdade e generosidade.

The Mending Project, de Lee Mingwei, artista nascida na Tailândia e que hoje vive em Paris, convida os visitantes a levarem roupas estragadas para ajustes e remendos. Depois de consertadas são colocadas em uma pilha ao lado. “O ato de costurar, que parece banal a princípio, é transformado num ato de narrações pessoais significativas e na possibilidade  de uma ressonância emotiva”  A artista e sua assistente permanecem no local durante todo o horário. Pavilhão dos Artistas e dos Livros.

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“A arte de hoje, frente aos conflitos e às surpresas do mundo, testemunha a parte mais preciosa da humanidade, em um momento em que o humanismo é colocado em perigo”.

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Assim propõe a curadora Christine Macel sobre Arte Viva Arte, na 57a. Bienal de Veneza e oferece ao visitante um percurso orgânico, em uma sequência de pavilhões no Arsenale, além dos pavilhões nacionais no Parque Giardino. Nove (cabalístico)no total os capítulos desse livro aberto para a criação.

“Em uma sequência de pavilhões, de salas ou ambientes que propõem ao espectador uma experiência, como uma viagem do interior ao infinito”.

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Dos Artistas e dos livros, Das Alegrias e Tristezas, Do Espaço Comum, da Terra, das Tradições, dos Xamãs,  Dionísico, das Cores, do Tempo e do Infinito.

Teresa Lanceta (Espanha) Original Carpet (Moyen Atlas). Para artista os tecidos artesanais são, sobretudo o extraordinário exemplo de uma antiga arte, as origens da transmissão e do enriquecimento da linguagem estética. Influenciada pelos descobertas de tecidos feitas em Marrocos, Lanceta expõe junto com sua obra um tapete marroquino original. Pavilhão da Tradições.

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O verbo tecer não foi colocado sem motivo no título desse texto.

Petrit Halilaj compôs a instalação “Do You realise there is a rainbow even if it’s night?”. Nascido na Bósnia, o artista e sua mãe realizaram esculturas  utilizando os tecidos tradicionais de Kosovo. A da foto é uma borboleta noturna que fazia parte do imaginário do artista na infância. Halilaj faz um cartarse de suas próprias emoções, dos próprios sentimentos de amor. Pavilhão da Alegria e do medo.
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A tecelagem, o fio, o tecido estão muito presentes nas obras desse biênio, sobretudo nas obras dentro do Arsenale.

Local em que antigamente eram construídas os navios venezianos, e que hoje foi transformado em parte da área para Bienal. É dentro Arsenale  que a curadora Christine Macel oferece um percurso conjugando as obras dos artistas participantes, mais o tema proposto Viva Arte Viva.

Ambos a partir de um contexto que procura “favorecer o acesso e a compressão dos significados, gerando encontros, ressonâncias e reflexões”, diz ela.

Falamos de forma superficial sobre as obras que estão expostas porque é impossível condensar em linhas e matérias ajustadas aos tempos da internet, a monumental Bienal da Arte de Veneza, que reúne povos artísticos das mais diferentes origens. A ideia é passar um pouco da emoção que autora do texto sentiu ao percorrer a mostra.

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Um lugar Sagrado é obra do brasileiro Ernesto Neto inspirado nos rituais da tribo Huni Kuin, do Acre. Uma tenda tecida em poliamida, um trabalho que remete ao crochê das nossas avós, suspensa nas vigas do teto convida o visitante a tirar os sapatos, entrar e sentar dentro do espaço para se socializar, promover encontros políticos ou cerimônias espirituais. Pavilhão dos Xamã

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Arte Viva Arte traz uma mensagem positiva nesse biênio. É dirigida aos jovens artistas e ao mesmo tempo uma nova atenção aos artistas que em pouco tempo desapareceram ou foram incompreendidos pelo grande público apesar da importância de seu trabalho.

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Huguette Caland, TêTe-à-Tête.

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Pauline Curnier Jardin, Gruta Profunda. Na verdade, a a artista faz ironia ou zomba da santa católica Bernadete de Soubirous, que foi religiosa. A gruta sugere uma vagina, um local úmido escuro, que pode remeter à inocência da adolescente que foi canonizada pela igreja católica pela aparição da Virgem Maria a ela numa gruta nos Pirineus franceses, ou como ela ser uma iniciada do Marquês de Sade. Pavilhão Dionísico.

O Pavilhão Dionísico celebra o corpo feminino e sua sexualidade, a vida e o prazer, com alegria e senso de humor, com diversas obras de artistas mulheres. São desenhos, costumes pinturas, contornos eróticos, esculturas orgânicas e fotografias, reinventam uma imagem do corpo feminino. Mas o olhar não é o do desejo, mas de intimidade.

A americana Sheila Hicks, Escalada muito além dos terrenos cromáticos, é uma instalação composta por bolas coloridas de pura fibra que convida o espectador a apreciar e fazer a descoberta tátil . É um extraordinário espetáculo! Pavilhão das cores.

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Segundo estudos da neurociência as cores não existem propriamente, são resultados de um processo cerebral e dos olhos que decodificam a realidade. Entre sensibilidade e transparência, luz e espiritualidade, experiência óptica e explosão visiva, o Pavilhão das cores representa uma espécie de “fogos de artifício”, no qual convergem, ao fim do percurso do Arsenale.

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“Cada pavilhão  oferece uma prospectiva sobre questões levantadas a partir dos anos 60 e sobretudo 70. Eles estão sendo retomados e reformulados em um contexto antropológico e sociológico em plena transformação, cuja inclinação ainda é incerta, ainda viva, mesmo que não tenha respostas. estas problemáticas permitem inscrever a arte na realidade de sua época, refletindo interrogativas que são também as mesmas da sociedade civil. 

Embora a arte não tenha mudado o mundo, por meio dela pode ser reinventado”.

* A Bienal de Arte de Veneza encerra no dia 26 de novembro.

*Christine Macel, a curadora, nasceu em Paris. Desde 2000 é curadora chefe do Museu Nacional de Arte Moderna – Centro Pompidou de Paris, onde é responsável pelo Departamento de “Criação Contemporânea e Prospectiva”, que fundou e desenvolveu.

 

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo.

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