Refaat al - Aeer foi professor, poeta, escritor e ativista palestino que morreu num bombardeio na faixa de Gaza. Ele cofundou a organização "Nós não somos números".
A 61a Bienal das Artes de Veneza faz um manifesto contra a barbárie e a guerra ao colocar na entrada do Arsenale, uma gigantesca faixa com o poema de Refaat al Aeer. (saiba mais).“Se eu tiver que morrer, você deve viver para contar minha história….”
Palavras que são símbolos de resistência e que se conectam com o tema desta edição, de 2026 “Em Tons Menores”. Uma bienal interessante que coloca como reflexão nossas memórias, luto, espiritualidade e vida pós-morte. Densa, comovente e profundamente humana.
“Se eu tiver que morrer, você deve viver, para contar minha história, para vender minhas coisas, para comprar um pedaço de tecido e alguns cordões ( faça-o branco com uma cauda longa), para que uma criança em algum lugar em Gaza, enquanto olha o céu com seus olhos, esperando seu pai que partiu em chamas, e não se despediu de ninguém, nem mesmo de sua carne, nem mesmo de si mesmo, veja a pipa a minha pipa, que você fez, voando para cima e pense, por um momento que um anjo está trazendo de volta o amor… Se eu tiver que morrer, que traga a esperança, que seja uma história, um conto….”
Refaat al-Areer
gosto demais de percorrer bienais de artes e tenho visitado a de Veneza desde 2011. Um evento gigantesco que o coloco no patamar de um espelho que reflete o que está acontecendo no mundo na linguagem da arte. A cada dois anos, a cidade recebe novos artistas, novas vozes vindas de diferentes partes do planeta, outras memórias e outras maneiras de interpretar a existência.
Já há alguns anos, tenho observado que Veneza está dando voz às minorias e abrindo espaço para os continentes africano, asiático e aos países latinosamericanos. Talvez não agrade tanto aos próprios europeus. Mas Veneza é fascinante neste período e nesta cidade única, é impossível esquecer o quanto a beleza ainda pode nos comover.
O mundo muda e a arte muda com ele. Mas Veneza permanece. E é justamente essa permanência que torna a experiência tão singular.
Diante de uma cidade que há séculos transformou o impossível em possível, numa arquitetura peculiar e plena em beleza, somos convidados a entrar em um universo artístico no qual uma ideia pode valer mais que uma forma.
Talvez seja essa a grande provocação da Bienal: perceber que a arte não precisa mais necessariamente ser bela para ser poderosa. Veneza não condena a arte conceitual, nem idealiza a arte do passado. Coloca as duas diante uma da outra e deixa o observador livre….
Há algo de profundamente paradoxal em contemplar a arte contemporânea em Veneza. Acidade talvez seja uma das maiores obras de arte já construída pelo homem. Seus palácios, igrejas, pontes, canais e praças foram moldados ao longo de séculos por artistas, artquitetos que fizeram da beleza uma forma de expressão e também de poder. Veneza é patrimônio artístico inestimável, uma obra que continua existindo apesar do tempo, da água e das transformações do mundo. É neste cenário quase irreal que a Bienal de Veneza se instala. E talvez por isso a experiência seja tão provocadora.
A arte contemporânea, em grande parte, já não está interessada em produzir o belo. Muitas vezes, o que importa não é aquilo que os olhos encontram, aquilo que a obra é capaz de provocar no pensamento. O objetivo artístico pode ser mínimo, áspero, silencioso ou até mesmo desconcertante. Seu valor não está necessariamente na elaboração estética, mas na ideia que carrega, na pergunta que formula, no território de reflexão que abre.
“Em tons menores( In Minor keys) foi concebida pela curadora coamaronesa-suiça Koyo Kouoh ( 1967-2025). São 110 artistas participantes e 100 participações, nacionais.
Sete países participam pela primeira vez, entre eles Guiné, Guiné Equatorial, Serra Leoa, Vietnã e Nauru. A Bienal de Veneza é evento artístico que há décadas funciona como uma espécie de sismógrafo do mundo.
Registra deslocamentos e novas maneiras de olhar para a realidade. Nesta edição, esse movimento parece especialmente evidente. O olhar se volta com mais intesidade para geografias que durante muito tempo ocuparam posição secundária no grande circuito da arte.
Visitar uma mostra desta magnitude em Veneza é como se a cidade dissesse para você: OLHE
E a arte acontemporânea respondesse: PENSE




