Proteção, resistência, natureza, espiritualidade e sobrevivência estão associadas a planta "Comigo Ninguém Pode". Uma poética escolhida para o pavilhão do Brasil na Bienal das Artes de Veneza 2026.
A Bienal de Veneza foi aberta em maio e três mulheres brasileiras visionárias, a curadora Diane Lima, as artistas Adriana Varejão e Rosana Paulino, não tinham ideia do grande desafio político que o Brasil passou nestas últimas três semanas de outubro.
O tema baseado no conceito da planta “Comigo Ninguém Pode” é trazido para momento atual como exemplo de resistência e luta contra a extrema-direita e o neo-colonialismo. Neste enfoque, é possível transfomar-la numa metáfora do Brasil e de seu povo neste momento histórico.
Peço licença poética para escrever e associar o tema conectado a retomada da democracia nestas eleições.
No pavilhão brasileiro, o título remete à planta popularmente conhecida como “comigo-ninguém-pode”, associada à proteção e à defesa. A resistência diante das violências históricas, a preservação da memória e a afirmação de identidades.
As duas artistas estabelecem diálogos importantes com a história brasileira:
Adriana Varejão: investiga as marcas do colonialismo, a violência da história, a mestiçagem e as contradições da formação cultural brasileira.
Rosana Paulino: trabalha com ancestralidade africana, memória, escravidão, identidade e a experiência histórica das mulheres negras.
A memória deixa de ser apenas lembrança e se transforma em matéria de criação, questionamento e reconstrução.É um tema que permite discutir a arte brasileira para além da estética: como pensamento, linguagem, memória e expressão de uma sociedade.
E há uma imagem poética muito bonita nessa ideia: a planta não é apenas um símbolo de proteção; é o retrato de um povo que, mesmo diante das adversidades, continua criando raízes e buscando florescer.
Associada à proteção, ela parece traduzir a força de um povo que conhece as adversidades, mas não abre mão de esperançar (esperança em movimento/ Paulo Freire).
Neste momento da nossa história, ela ganha uma dimensão ainda mais simbólica.
Da série Búfala, 2019, de Rosana Paulino. O projeto oferece uma troca visceral sobre como a espiritualidade e a natureza podem gerar um imaginário coletivo que, ao reescrever a história,reconstrói os muros da memória e reconfigura as feridas coloniais por meio de seres fantásticos e mágicos.
Parede com incisões a Fontana, 2011, de Adriana Varejão. A artista se consagrou devido suas obras de arte serem relacionadas a peles vísceras rasgadas, canibalismo, esquartejamento e azulejaria.
Obra de Rosana Paulino – muro de cimento inacabado, cujas ferragens expostas sustentam imagens de escravizados, devolvendo ao público um olhar pesado de memória e denúncia. Nesse diálogo artístico, a ruína é metáfora de um projeto de nação em conflito consigo mesmo.
Paisagem Canibal – Adriana Varejão/2003, ao fundo uma floresta sem cores e ao centro adquire uma cor avermelhada, como se a floresta fosse carne, viva, pulsante e vulnerável. “A obra nasceu da experiência transformadora que vivi um ano antes, durante uma residência no território Yanomami Watoriki realizada com o antropólogo Bruce Albert e o líder e xamã Davi Kopenawa. A obra foi criada para a exposição Yanomami: o espírito da floresta, apresentada na Fondation Cartier pour l’art contemporaine”…. Fonte Instagram da artista.
Comigo ninguém pode, do nome português da Dieffenbachia, planta comum em frente a casas ou em entradas de prédios no Brasil, e considerada um símbolo de proteção espiritual. Tenho um vaso dela na minha sacada, quem não tem?
A ambiguidade e o sincretismo do termo original, que também se tornou um ditado popular, podem ser interpretados como “Ninguém pode me derrotar” ou “Não me desafie!”, alusões à toxicidade da planta.
O projeto reflete sobre a manifestação da fé e da espiritualidade na cultura brasileira, enfatizando sua estreita ligação com a natureza e dimensões que transcendem o humano.
Vamos considerar que o tema “Comigo Ninguém Pode” não pode ser interpretado como uma expressão de intolerância, mas como afirmação da força de um povo que resiste, sobrevive e escolheu a democracia, a liberdade e o direito de escrever sua própria história.




