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Desapegos necessários que eliminam o ‘para sempre’

Armário de Roupa - pintor holandês Pieter de Hooch (1629-1684). Foto via  virusdaarte

Armário de Roupa - pintor holandês Pieter de Hooch (1629-1684). Foto via virusdaarte

O fato de entregar um velho armário de imbuía maciça “para sempre” me deixou vulnerável às emoções relacionadas com o apego e a história de minha vida. Me fez refletir sobre a importância do desapego e o termo ‘para sempre’ cristalizado em nossa mente….

Hoje, nesse mundo tecnológico em que nada é para sempre e tudo é assustadoramente descartável, até os móveis antigos perdem-se no tempo.

Confesso que na época que aconteceu a doação do armário, cuja posse da minha parte era só de aparências, pois não servia mais na função pelo qual foi colocado em minha casa, senti que me faltou chão ao saber que ele não seria mais meu. Meu?

Quanta pretensão! Alguma coisa é nossa se estamos aqui de passagem?

Entretanto, como não sou perfeita, apenas uma mortal fazendo exercícios permanentes de desapego vou contar a história do armário de imbuía que um dia foi importante em minha vida!

Engraçado,  não é? Pode debochar….

Um “solavanco emocional” aconteceu quando minha sobrinha Bruna me perguntou se podia ficar com o móvel, isto é, tomar posse dele “para sempre” porque desejava restaurá-lo e para garantir o investimento precisava ter a certeza de que seria dela. A surpresa maior foi aquela indisfarçada angústia de não conseguir responder a pergunta de imediato.

Um velho armário de madeira antiga, que um dia foi elegante, imponente, feito à mão, com riqueza de detalhes, das dobradiças aos entalhados na porta. Sente-se nele a mão de um mestre que sabia manipular as ferramentas corretas nos encaixes e nos enfeites.

A dificuldade do desapego, talvez tenha sido por isso. Pela beleza de suas linhas ou porque trazia lembranças de um tempo que já foi embora. A primeira proprietária foi a ex-sogra, que depois repassou a mim e aos meus cuidados ficou pelo menos uns 30 anos. Depois serviu minha filha, cujo espírito prático e sem grandes apegos às linhas e cores antigas o transformou num grande trambolho azul celeste, considerando que morava num minúsculo apartamento.

Sem dó passou tinta azul naquela magnífica madeira nobre

Uma verdadeira heresia esconder uma madeira nobre como imbuía na medíocre tinta azul, ainda à oleo. Paula passou o pincel sem dó. Te garanto que se o armário pudesse expressar sentimentos, eles seriam de humilhação, pois perdeu seu estilo clássico e até as dobradiças coloniais de metal não foram poupadas da praga azul.

O destino cruel dele, sem identidade ainda durou alguns anos. Ficou abrigando roupas de outra sobrinha, a Renata, como um quebra-galho enquanto não comprava um novo que coubesse no seu pequeno apartamento.

Apego?

“Apego a um objeto? “, me perguntei. Me senti pequena espiritualmente ao conferir que realmente era um certo apego.Mas não um apego doentio e material. Não! Algo um tanto subjetivo. Creio que alcança mais o imaginário e a estética.

Sempre achei o armário fora da funcionalidade moderna. Com enormes gavetas e por demais profundas que, pelo fato de deixá-la cheias de roupa, até à borda, me fazia perder de vista a peça que colocava no fundo da gaveta e bagunçava tudo, toda vez que tinha ânsia de encontrá-la e nunca achava. Ao final , habituei-me a manter minhas roupas na mais completa desordem.

Nada prático.

Por outro lado, o design é único. Tinha duas portas de vidro e a madeira era discretamente entalhada em todas partes.

Ahh… com aquelas incríveis dobradiças que o deixava mais parecido com aqueles móveis de castelos medievais. Acho que era isto que me atraía e por isso o mantive por mais tempo possível perto de mim. Era nobre!

Ria… Não me preocupo.

Certamente, o ar de nobreza se manteve até ser impiedosamente pintado todo de azul celeste como se tivesse caído dentro uma lata de tinta, sem dar chances às belas dobradiças.

São as diversas formas de enxergar o mundo.

“Este armário não combina com os outros móveis meus, que são mais leves, mas mesmo assim vou ficar com ele por uns tempos porque preciso de espaço para guardar minhas coisas, vou pintar tudo igual”, disse minha filha.

Depois que o destroçou, não precisou mais dele, jogou-o no depósito da casa da minha irmã, e por incrível que pareça, por ser forte e de boa qualidade continuou sendo útil e passou a ser usado de novo. Foi quando Renata aproveitou o maciço.

Alguém pensando como eu

Mas foi Bruna, outra jovem da família que o olhou de uma forma mais ampliada, que captou a essência da beleza oculta e sentiu a mesma atração que eu sempre senti por ele. É belo!

“É belo”, exclamou admirada ela. Posso ficar com ele tia?

Aí, chegou o impasse do “para sempre” que me quebrou por dentro. Será por que projetamos a nossa história em objetos, e neste caso, num móvel, numa estrutura de madeira? Focamos nestes objetos nossa agonia de reviver e sonhar as últimas lembranças de um tempo que já foi vivido…

Analisando bem…. é se dar conta que a mente precisa de tempo para se adaptar às nossas perdas, seja de quem amamos ou materiais. É entender que garantir algo para sempre alcança o futuro e ele nos assusta.

É apenas o impacto da expressão “PARA SEMPRE” !

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo.

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