fdffd (1)
O lado escuro da alma: Fiódor Dostoiévski
1 de dezembro de 2017
22815608_2286885581337868_5379445023851878108_n
Arte de fazer rir da palhaça cheia de graça
9 de dezembro de 2017

Nelson Rodrigues e a Tragédia Carioca

Nelson Rodrigues - Foto de elpais.com

Nelson Rodrigues - Foto de elpais.com

Essas últimas duas semanas foram um pouco peculiares em relação as minhas leituras: li seguidas cinco obras do mesmo autor. Não sei se foi uma neura, uma obsessão, mas Nelson Rodrigues me pegou pelas pernas; ou melhor, pelos olhos.

Voltar a ler em português, ver de novo a minha língua e entender o panorama brasileiro  e o comportamento da nossa sociedade foram um dos motivos que um livro me levava ao outro.

Esse ano já tinha lido, pela primeira vez, O Beijo no Asfalto, umas das obras míticas quando falamos em teatro brasileiro e crítica a hipocrisia nacional. Durante o ano, li umas tantas outras obras em português, também bastante ácidas e com muita crítica. Quincas Borba, de Machado de Assis é um claro exemplo de uma crítica a hipocrisia humana.

Obras

valsa n6 viuva porem honesta vestido-de-noiva anti nelson rodrigues a mulher sem pecado

Foram cinco obras que me dediquei a ler estas últimas duas semanas: A Mulher sem pecado, Vestido de Noiva, Valsa nº6, Viúva, porém honesta e Anti-Nelson Rodrigues. Em todas elas pude detectar um elemento em comum, que ao contrário do que muita gente pensa não é são os temas clichês em torno da obra (homossexualismo e adultério) senão de como era, se comportava, a sociedade brasileira entre os anos 40 e 60.

Levei essas obras a casa de um amigo e fiz uma narração em voz alta. Quando lhe contei os anos que estas obras foram apresentadas no Brasil, ele não acreditou. Ora, nos anos 40, aqui na Espanha, com a ditadura Franquista, estas obras estariam proibidíssimas. Coisa que mais tarde passou no Brasil com o decreto AI5.

Análise

Todos os seus diálogos, todas as suas obras, mostram o comportamento de uma sociedade preconceituosa e machista ao extremo. Temas como a negação do homossexualismo, a submissão da mulher, a violência de gênero aparecem na sua obra da forma mais sórdida e latente que chega a ser um tapa na cara em cheio na cara daquela sociedade. Pensemos que elementos que hoje estariam mais que reprováveis pela nossa sociedade eram coisas comuns há uns 50/60 anos atrás.

Esses temas, que hoje já não são falados nem questionados por muitos, são essenciais para entender como se constrói uma sociedade e uma cultura. Analisá-los, lê-los podem nos proporcionar perspectivas diferentes de como nós cremos que é uma sociedade e como ela realmente é ou foi. No caso do Brasil, estou mais convencida que ela foi, mas hoje vendo alguns movimentos extremistas que olham mais para o passado que para o futuro, corremos o risco de que o nosso país volte a ser uma peça de Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues na sala de aula

Hoje, acho que mais do que nunca, deveríamos estudar Nelson Rodrigues na sala de aula, ler seus textos em voz alta, e fazer um debate com os alunos sobre o muito que uma sociedade pode evoluir. Entender que as coisas mudam, que os valores também e esse motor de mudança, de evolução, é essencial para construir um futuro.

Nelson Rodrigues é necessário para indagarmos, hoje em dia, se queremos voltar a viver numa sociedade em que a mulher não tem voz – em que era agredida, violada e condenada a carregar com a culpa do seu agressor. Queremos viver numa sociedade sem respeito ao próximo, sem respeito ao homossexualismo, aos que sofrem de alguma deficiência, em suma, aos diferentes.

Queremos viver numa sociedade em que toda a carga econômica tenha que ser levada pelo homem, em que este não possa chorar na frente dos outros e tenha que demonstrar por meio da violência a sua virilidade?

Padrão Nelson Rodrigues

A sociedade de Nelson Rodrigues, das peças de Nelson Rodrigues, não é só injusta com as minorias, senão também com uma maioria que não tem direito a ser quem realmente quer porque se vêm presos numa série de padrões e comportamentos que estão obrigados a atuar.

Esta sociedade, este rol, pode ser que já esteja longe de muita gente, mas não esqueçamos que ela, um dia, há não muito tempo, já foi a nossa realidade. Não esqueçamos disso, para garantir que ela não volte.

Comentários Facebook

comentarios

Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela. Jornalista por vocação, já viveu em muitos países (Brasil, Portugal, Inglaterra, Espanha), em busca de desafios. Atualmente trabalha no departamento de Marketing da Tyco Integrated Fire & Security (parte do grupo Johnson Controls) como Campaign & Sales Enablement Manager Continental Europe, apesar de que escrever é a sua verdadeira paixão. E o mundo do vinho também. Além disso, dedica-se a promover formas mais sustentáveis de vida, como o uso da bicicleta em Madri, colaborando com o blog "Muévete en Bici por Madrid". Colabora com alguns blogs e escreve contos em inglês, português e espanhol.

1 Comentário

  1. Manu disse:

    “Nelson Rodrigues”, conheço e desconheço pois não li nenhuma obra dele, que eu me lembre. O beijo no asfalto acho que já foi encenado por várias companhias. ELE é tão famoso entre nós e ao mesmo tempo não sabemos nada dele.(me pego nessa posição)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *