O balanço da rede e o equilíbrio da solidão em Itapoá como era ontem

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O balanço da rede e o equilíbrio da solidão em Itapoá como era ontem

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Itapoá, em Santa Catarina, está perdendo suas matas e os belos pássaros estão deixando de visitá-la…

imagem, um pedaço de mar.

Um pedaço de mar visto da sacada é como se fosse o paraíso.

No balanço da rede em Itapoá de ontem encontro o equilíbrio que necessito para criar novos projetos. Digo Itapoá de ontem, em Santa Catarina, aquela que ficou guardada a sete chaves na minha mente. Hoje, a cidade catarinense se moderniza a cada momento pelo porto particular que se instalou há poucos anos.

Floresta Portátil

Portanto,cada vez que preciso ficar sozinha me transporto ao cantinho da rede que me embala na sacada de Itapoá. Isso me faz lembrar  o que disse o biólogo e escritor inglês Rupert Sheldrake, numa entrevista, mais ou menos assim:

“Na solidão me transporto a uma floresta portátil guardada em algum cantinho da minha mente, como se estivesse carregando ela dobrada comigo dentro do bolso e para onde vou a abro à minha volta quando necessário. Em seguida, sento-me aos pés das árvores velhas enormes da minha infância. Desse modo faço as minhas perguntas e recebo as minhas respostas”.

A beleza me tocava o coração de tal forma que Itapoá virou meu cantinho de cura

A beleza me tocava o coração de tal forma que Itapoá virou meu cantinho de cura

No vai-e-vem do balanço da rede naquela sacada rodeada de verde, em Itapoá, a minha mente voava longe e no infinito dos sonhos trazia para mim, muitos projetos e um repouso curativo durante o período mais difícil de minha vida.

O progresso

Era e continua sendo a casa de minha irmã. Mas de 2011 para cá muito coisa está mudando.

imagem,caminho de terra e mar Terra, areia e grama, juntam-se e deixam o caminho gostoso

Terra, areia e grama, juntam-se e deixam o caminho gostoso

A rua que passa na frente da casa ainda  é sem asfalto. Terra, areia e grama, juntam-se e deixam o caminho gostoso de pisar, morno no verão e enlameado nas chuvas.

imagem,pássaro. Será ele existe ainda numa cidade em que o progresso chegou?

Foto feita em 2010. Provavelmente seus filhotes não estão mais por perto. As árvores foram cortadas por ali…

Cadê os passáros

Aqueles pedaços de terra cheios de mato ainda existem, mas estão ficando cada vez mais distantes, perto da serra e longe das casas. Os terrenos abrigavam os passarinhos mais belos e coloridos do planeta.

bromélias e pássaros povoavam as árvores

bromélias e pássaros povoavam as árvores

Talvez sobrem algumas árvores, onde crescem  bromélias das cores rosa e vermelha  grudadas em árvores antigas e ainda têm pés de maracujá, goiaba, caju, coquinho que se misturam aos cipós  e outras espécies de árvores que formam a imagem luxuriante da floresta Atlântica, no sul do Brasil.

Um toque no coração

Mas a beleza me tocava o coração de tal forma que escrevi em 2011, um texto resumindo o tratamento para acalmar a mente feito em Itapoá, meu cantinho de cura.

a rua só tinha cinco casas...

A rua só tinha cinco casas.

“A rua tinha cinco casas com moradores que se conhecem há mais de 20 anos.

Meu pai batizou-a como a Rua das Estrelas. Pintou uma placa cheia de estrelas e pregou num pau comprido no início da rua.  Não sei se foi para homenagear as duas filhas ou porque a praia tinha muitas estrelas do mar.

Ohhh!  Dúvida atroz que me atormenta a auto-estima. .. Um nome poético e próprio para quem tinha alma de artista, logo destruído pela rude prefeitura que simplesmente numerou as ruas e as deixou sem nome. Que triste isso!

Agora o sobrado verde rodeado de sacadas espaçosas  que fica distante  uma quadra do mar está na rua 1.690. Que falta de criatividade!

Abrir as portas e as janelas e deixar o sol entrar.

Era chegar na casa e começar e abrir as portas-janelas para deixar o ar puro entrar depois de permanecer fechada por algum tempo.

Bem, não importa. O que mesmo importa é a sensação agradável  de chegar na casa e começar e abrir as portas-janelas para deixar o ar puro entrar depois de permanecer fechada por algum tempo.

Cantinho mágico

cantinho mágico

cantinho mágico

Terminado o  ritual inicial, o segundo passo é engatar a rede no cantinho mágico da sacada, escarrapachar-se naquele tecido rústico de algodão forte e macio que se molda ao teu corpo, dar impulso com o pé nas ripas da sacada para iniciar o vai-e-vem da rede. Em seguida é só deixar que a brisa acaricie o teu rosto e ao mesmo tempo embale os teus devaneios até adormecer ao som das ondas do mar e da sinfonia da natureza.

É um mimo que o planeta presenteia  a qualquer mortal e  para quem desejar experimentar  e perceber todos estes detalhes, que transformam um lugar tão singelo num espaço extraordinariamente significativo.

Um cantinho de sacada que mostra um pedaço de mar, onde o barulho das ondas, os grilos à noite, e os passarinhos durante o dia, nos deixam num voluptuosa sensação de  prazer .

Bom da cabeça

A água de poço com enxofre, o chuveiro fora (existe um dentro das casa, mas pouco se usa no verão), os cômodos arejados e espaçosos, a brisa refrescante do mar, a mata nativa no fundo quintal, os saudáveis banhos de sol e mar, peixe fresquinho  na mesa.

Tudo isso, compõem um conjunto de ingredientes capaz de levantar um moribundo e deixar você “bom da cabeça e certo do juízo de novo”, como diziam os antigos.

A paisagem era luxuriante. Já não existe mais. Vai dar lugar ao progresso.

A paisagem era luxuriante. Já não existe mais. Vai dar lugar ao progresso.

Itapoá me ajudou a dizer adeus a “fluxuotina”e neste cantinho encantado eu dormi horas, dias, em sono profundo me recuperando de um cansaço mental provado pelas dores da vida. A cada dia que usava este método de cura dava mais um passo para me desvencilhar da dependência por medicamentos e me tornava auto-suficiente nas minhas emoções.

Os meus aliados nesta empreitada difícil foram os banhos –  primeiro no mar de água morna, em que as ondas inquietas brincavam o tempo todo com o equilíbrio do meu corpo.  Depois de chuveiro com água gelada e fedida, cheirando ovo podre, que me deixavam com uma sensação de bem estar , certa de que a circulação sanguínea  estava rápida e movimentava no meu organismo me restituindo a força vital.

Ao final, a comida gostosa na mesa, livro bom para ler, e o sono recuperador na rede no alto da sacada. Este era o momento mais saboroso para mim. …

Itapoá, em Santa Catarina

Itapoá, em Santa Catarina.

Lugar de inspiração

Confesso que muitos dos meus projetos de vida saíram deste espaço pleno de natureza. O lugar é especial. Deve ser por isso que as pessoas que vivem lá  são felizes , deixam o tempo passar sem preocupação.

Os bailões da Tia Cida dão Ibope e mantém o galpão lotado de dançarinos  todos os sábados à noite.  É turista meio sem graça no começo. Pescador com sandália de dedo e jeitão simples.

Vendedor de rede na praia, comerciante da região – todos, que neste momento estão mesmo nível social,  sincronizam-se ao som de um vanerão bem tocado e  o balanço das cadeiras das mocinhas e também das senhoras de mais idade entram na cadência dos passos do dançarino.

Todos estão ali desfrutando do simples prazer de dançar  uma boa música regional.

Tudo é tão peculiar neste espaço que une mar, mato e o bicho homem, que até a forma de achar o lugar certo para cavar um poço foi na base da forquilha de pêssego. Não é lenda não!

Faz algum tempo, um homem que vivia na região conseguiu achar  água com o galho de árvore de  duas pontas  e  na hora que as pontas vibraram ….. pronto! Achou o lençol freático.  Minha irmã o contratou especialmente para fazer o serviço e lá está o poço até hoje abastecendo a casa.

Solidão compartilhada

Cada vez que preciso ficar sozinha me transporto ao cantinho da rede que me embala na sacada de Itapoá. Então sigo o exemplo do escritor e biólogo inglês, apenas com a diferença que no lugar da floresta portátil coloco o sobrado verde com a sacada ensolarada e me deito na rede.

Desse modo, embalada com a brisa do mar e a sinfonia da natureza formulo as minhas perguntas …”

Assim conclui meu texto em 2011 e tenho na lembrança todos os detalhes do lugar como era antes. Agora somente a rua permanece sem asfalto, mas os terrenos estão perdendo as árvores e dando lugar para muros altos e casas.

Mas o progresso não atrapalha minha doce meditação. Só a saudades é que aperta o coração.

imagem, rede na sacada. Lugar de relax..

Só a saudades do verde no entorno é que aperta o coração.

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma. Acredita nas palavras bem ditas ou 'benditas', ou seja, bem escritas, que educam, que seduzem pelos significados, pela emoção ao informar sobre a arte da vida que se manifesta nas relações afetivas, na criação artística, nos lugares, na natureza e na energia do Universo

2 Comentários

  1. Mara S. Lima disse:

    Adorei este texto! Itapoá foi e é tudo isso. Conservo o meu cantinho ainda com árvores, flores e muitos pássaros.
    Parabéns Mari, seu texto fica cada vez mais gostoso de ler.

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