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A Máscara

mascara

                                                    A mulher que já tirou sua máscara

                                            Não conseguiu ver seu rosto em nenhum espelho,

                                                             Pois o tempo está atrasado para eles

                                               E todos os espelhos ainda mostram a sua máscara…

 

Você nunca renunciou a sua máscara, isso sempre me  surpreendeu, eu procurava seu rosto real debaixo dela e, algumas vezes, consegui um vislumbrar rápido, mas você sempre evitou se mostrar. Quem sabe você pensou não existir nada em baixo de sua máscara. O que é a pior coisa? A pior coisa é quando você tira sua máscara e, a despeito disso, tem um rosto igual ao dela. Se eu tivesse esse tipo de rosto, preferiria ser um “sem rosto” quando tirasse a máscara, porque desejaria a chance de fazer um novo real rosto. Mas na máscara em baixo da qual encontra-se o mesmo rosto, está uma pessoa que irá para o abismo da falta de significado.

Colocamos nossos rostos em tantas diversas máscaras, em casa, nas ruas, no restaurante, no escritório… Chega um dia que nossas máscaras tornam-se nossos rostos e nossas vidas um show de insignificâncias. Ficamos reduzidos a figurantes. Sentimos medo de um dia a máscara cair e evitamos isso. Nossas vidas são um desfile de rostos virtuais.

Talvez você se perturbe com o fato de eu ter apontado a sua máscara, porque eu queria livrar você de viver com identidades falsas e ilusões. Queria que você fosse apenas você mesma. Mas você estava em contradição e num estéril regresso.

Um dia te dei um livro de Bukowski e após ler, você não gostou. Falei que se você lesse esse livro , depois tiraria sua máscara , porque ele é o mestre de pegar as máscaras dos leitores. Ele é direto e sem rodeios, o que machuca as pessoas, mas eu não queria que você se machucasse. Se você se machucasse eu morreria.

Um dia falei para você sobre o desejo de ter uma carreira. Disse que isso traz uma identidade irreal, que você teria que encontrar na sua vida todas as coisas e salvar você mesmo de falsas identidades. Eu tinha também uma máscara como a sua, mas um dia a rasguei e joguei fora. Você pode saber o que aconteceu: desde aquele dia não tinha o meu rosto, eu queria fazer meu próprio rosto com todo meu esforço. Ainda estou nessa busca. Há que se lutar com unhas e dentes pela vida, muitas vezes recomeçar do zero, do negativo. Essa busca dá significado à sua vida.

 

Do livro “Amor e Solidão” de Erol Anar

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Erol Anar
Erol Anar
Erol Anar nasceu em Havza na Turquia, estudou em cursos de Antropologia (durante dois anos), História da Arte (durante dois anos) e pintura (durante um ano) nas universidades de Istambul, Ancara e Samsun. Foi membro da Associação dos Escritores Turcos, trabalhou no Centro de Arte Contemporânea de Ancara onde foi orientador de leitura da obra de Dostoiévski e da literatura universal durante 10 anos. Ganhou prêmios. Escreveu em diversos jornais, vários artigos foram sobre arte, direitos humanos, literatura e a vida cotidiana. Ainda teve entrevistas veiculadas em jornais de diversos países e tem 15 livros publicados no idioma turco.2 Deles foram traduzidos para português.

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